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Tempos modernos

Por Rafael Cardoso de Mello Coordenador do Curso de História e do Curso de Pós-Graduação em História, Cultura e Sociedade do Centro Universitário Barão de Mauá.


No filme “Tempos modernos” (1936), Charlie Chaplin protagoniza um operário que busca realização e felicidade, apesar dos obstáculos, conduzindo uma narrativa crítica e inteligente sobre as consequências da Revolução Industrial em nossas vidas. Usando o cinema, uma das consequências do próprio avanço tecnológico, o artista apresenta a alegria e a tristeza da mudança na indústria cinematográfica, dada a transição do cinema mudo para o sonoro, e, naturalmente, de sua própria arte – marco cinematográfico que até hoje nos convida a pensar em diversas questões.

Quais as consequências das inovações tecnológicas para a humanidade? Como os jovens do século XXI, imersos nas redes sociais e nos smartphones, avaliam o peso dessas inovações? Como elas afetam nossas vidas? Como lidaremos, nos próximos anos, com a ansiedade, a depressão, o desemprego, a solidão? Penso muito nisso.

A experiência como docente no Ensino Médio e no Ensino Superior me ajuda e, certa forma, autoriza a tecer algumas impressões e por conta dela, acabo sendo frequentemente convidado a opinar sobre tais questões. Na minha opinião a dimensão dos problemas citados não parece diminuir com o tempo. Muito pelo contrário.

O Curso de História do Centro Universitário Barão de Mauá recebe, anualmente, cerca de 40 estudantes interessados, diria até apaixonados, pelo estudo da História. Motivos variados os levam a se interessarem pela História, tais como: bons professores no Ensino Médio; boas experiências com a matéria durante os anos escolares; a influência de pais, amigos e familiares; experiências com literatura, cinema e jogos. Curiosamente, o que mais me chama atenção no comportamento dos ingressantes é o “desejo pela Verdade”. Pela Verdade Absoluta do passado. Para muitos destes estudantes, independentemente da idade que tenham, o historiador carrega o monopólio da Verdade absoluta sobre o passado; tal qual ocorreu. Seria como usar uma máquina do tempo e ver o passado, a partir das “sábias e científicas” palavras do professor de História.

Já nas primeiras aulas – surpresa! Quando perguntados sobre os jogos de poder e as o que significa “escrever história”, muitos entram em choque, e se lembram de suas formações iniciais como tradições frágeis e possivelmente construídas pelo (e para o) atendimento de interesses de grupos, etnias, partidos e demais redes de poder. Assim se percebia o comportamento dos alunos há dez anos atrás... assim se percebe em 2019, porém, recentemente, venho percebendo algumas mudanças em nossos estudantes.

Para o susto de muitos docentes e/ou profissionais experientes, a metodologia científica e o rigor com que desenvolvemos nossas práticas acadêmicas estão sendo comparadas a textos sem procedência ou lastro científico. Outras vezes, confundem pensamento ficção e poesia com realidade e prosa, encaram a dúvida (postulado básico da ciência e da filosofia) como desrespeito aos dogmas (realidade religiosa).

As redes sociais são reveladoras deste processo – Facebook, WhatsApp, Intagram e Twitter são fenômenos recentes de nossa sociedade (des)conectada. Apesar de óbvio, escrever que “opiniões” são bem vindas para o campo científico não deve, naturalmente, desautorizar a metodologia e a seriedade do cotidiano e da formação dos cientistas; mas sim, colocar em perspectiva os estudos e promover a continuação do movimento de dúvidas gerada pelo campo racional. Aprendemos isso muito rapidamente na faculdade. Aprendemos muito nas faculdades... Aliás, aprendemos coisas das quais às vezes não gostamos, porque a “verdade” nem sempre é aquela que nos convém.

Desde maio de 1968, a intelectualidade francesa apresentou ao mundo uma constatação importante – qual o objetivo do ensino na Escola? O que quer ensinar a Escola? O que quer promover a Educação de um país? De lá pra cá, a instituição escolar e o próprio discurso educacional vem sofrendo ataques de todos os lados – não mais legitimados pela ciência-verdade, mas sim marcados pela “ciência-de-interesses”, ou “ciência-parcial”. Costumo visualizar esta crítica como Chaplin fez em tempos modernos: a escola como uma indústria de moer pessoas, desautorizando saberes populares, produzindo cidadãos homogêneos. A música “another brick in the wall” da banda inglesa Pink Floyd é outra referência.

Neste contexto, realizo o exercício de me colocar no lugar do estudante, jovem com menos de 20 anos de idade o qual tem pressa para saber, pouca paciência para dialogar e preconceitos a sustentar. Em geral, sinto que os exercícios para desenvolvimento de paciência e de empatia deveriam acompanhar o currículo dos futuros filósofos.

Perdemos o monopólio da verdade e ganhamos algo incrível – a possibilidade de aceitar o “não sei”. Perdemos a fé da Verdade Absoluta, e ganhamos uma noção de verdade que se aproxima da complexidade humana. Sou entusiasta destes caminhos, contudo o início do texto ainda ecoa. Vivemos em ambientes maniqueístas e autoritários, com polarização das religiões, das ideologias... Há dificuldades em crer nas notícias que circulam na mídia e interesses em circular muitas notícias “sem compromisso com a verdade”.

O presente é marcadamente filho da revolução industrial. É preciso recuperar o espaço do diálogo para resistirmos à industrialização da vida e à reificação ou “automatização” dos sujeitos e, quem sabe assim, poderemos relembrar o que nos torna humanos.




Jornalistas:

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