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A ROUPA INFANTIL DA LITERATURA
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José Nicolau Gregorin Filho1
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RESUMO: Demonstramos a existência da chamada "Literatura Infantil" apenas no nível da manifestação textual. No processo de discursivização, o sujeito da 1enunciação escolhe figuras "apropriadas" ao universo infantil, sendo que a estrutura profunda dos textos guarda os valores historicamente produzidos pela sociedade.
UNITERMOS: literatura infantil; figurativização; enunciação, discurso.
Verificamos a existência da modalidade "Literatura Infantil" apenas no nível de manifestação de alguns textos, sendo que os temas não se diferem de outros produzidos na e para a sociedade.
Analisando os recursos utilizados na estrutura mais superficial e concreta (discursiva), verificamos vários elementos escolhidos pelos sujeitos das enunciações a fim de serem estipulados contratos entre enunciador/enunciatário com a finalidade de "fazer - parecer" infantil e "fazer- parecer" verdadeiro.
Segundo GREIMAS &COURTÉS (1979):
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... a discursivização deve-se distinguir da textualização, que é para nós um desvio do discurso (que pode operar-se em princípio a partir de qualquer instância do percurso gerativo), no sentido de sua manifestação e que se define relativamente a ela. Um dos procedimentos da textualização é a
linearização, isto é, a desconstrução do discurso, devida às coerções da linearidade do texto e sua reconstrução no quadro de novas regras do jogo, que lhe são impostas. Daí resulta uma nova segmentação textual, que produz unidades textuais de um novo gênero. A textualização tem por efeito produzir um discurso linear, segmentado em unidade de dimensões diferentes e formulável como uma representação profunda, pronta, ao passar às estruturas lingüísticas de superfície, a ser realizada como um discurso manifestado
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De acordo com a citação acima, podemos dizer que os valores e temas os quais constituem a base do texto são remoldados num tratamento linear e compatível a um texto que se volta para um enunciatário infantil. Esse fato deve ser percebido não somente no texto verbal, mas também, e de maneira mais marcante, na manifestação visual. O texto não-verbal se desenvolve com cenografias e figuras de tal forma a compor o outro, e os dois (visual e verbal) constróem um único texto, apropriado ao fazer interpretativo do enunciatário.
Com a união desses dois planos de expressão (visual e verbal) e dois planos de conteúdo (visual e verbal) inerentes à obra, temos:
onde:
P.E.Vi = plano de expressão visual
P.E.Ve = plano de expressão verbal
P.C.Vi = plano de conteúdo visual
P.C.Ve = plano de conteúdo verbal
P.C.T = plano de conteúdo do texto (visual e verbal)
P.E.T = plano de expressão do texto (visual e verbal)
T = manifestação textual integral. |
Torna-se importante termos em mente que o enunciatário "virtual" do texto é uma criança e a manifestação textual integral é resultado de duas semióticas (verbal e visual). Portanto, o texto "infantil" pressupõe um leitor competente intersemioticamente.
O recursos verbais e visuais contidos no plano da expressão têm o propósito, já citado anteriormente, de fazer-crer estarmos em contato com discursos que circulam no universo infantil e, portanto, tratam de temas infantis. Além disso, a sociedade, num processo de didatização, produziu esses textos como verdadeiramente infantis.
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Os procedimentos de discursivização - chamados a se constituírem numa sintaxe discursiva - têm em comum poderem ser definidos como a utilização das operações de debreagem e embreagem a ligarem-se assim à instância da enunciação. Dividir-se-ão em pelo menos três
subcomponentes: actorização, temporalização e espacialização, que têm por efeito produzirem um dispositivo de atores e um quadro ao mesmo tempo temporal e espacial, onde se inscreverão os programas narrativos provenientes das estruturas narrativas.( GREIMAS e COURTÉS 1979). |
O estudo dos procedimentos de discursivização é de fundamental importância quando nos propomos a estudar a literatura "infantil", pois a actorização, a temporalização e a espacialização são responsáveis pela criação de uma sintaxe didatizada em função do enunciatário para quem o texto é produzido.
Essa didatização de valores pode ser também explicada se retomarmos as partes dos discurso, como nos ensinou a "Retórica", e associarmos ao percurso narrativo, pois os dois nos mostram as fases da elaboração de um discurso que se quer realizar com o objetivo de exercer uma transformação no enunciatário. Conforme LOPES (1986):
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"... De fato, voltando a examinar aquelas partes a partir dos pontos de vista projetados por essa hipótese, veríamos que elas compõe, tomadas uma a uma e na ordem da seqüência indicada (com a única inversão de posições entre as duas últimas partes) um único e mesmo percurso enunciativo, balizado em homologia quase perfeita com o trajeto recortado nos moldes do percurso narrativo da semiótica greimasiana, com as (poucas) adaptações que se impõe: |
Percurso Enunciativo: Invenção + Disposição + Elocução + Ação + Memorização
Percurso Narrativo: Manipulação + saber + poder + Perfórmance + Sanção
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Entender-se-ia, nesse caso, por memorização, a decoração do discurso que por sua perfeição merecesse ser estocado na competência das pessoas como um dispositivo a ser reproduzido ou imitado posteriormente..."
Existe, se transportarmos o esquema acima para o fazer enunciativo "literatura infantil", o armazenamento desse saber discursivo, de tal forma que na fase da invenção são resgatadas figuras para serem dispostas (disposição, elocução) para que se produza um texto de acordo com o que se concebe como infantil (ação) e ele seja aceito pela sociedade (memorização).
Pela análise desses textos, percebemos que as sociedades (dizemos aqui das ocidentais) possuem um "CARDÁPIO" desses subcomponentes ao qual os enunciadores recorrem no momento da enunciação. Essa lista de opções de figuras vem sendo produzida desde que a pedagogia propôs que se publicassem textos adequados ao mundo da criança, sendo, então, uma produção cultural retroalimentada à medida em que novos valores vão sendo instaurados na sociedade.
Sendo que a isotopia figurativa caracteriza-se pela redundância de traços figurativos e pela associação de figuras aparentadas, a recorrência de figuras atribui ao discurso uma imagem organizada e completa daquilo que ideologicamente entendemos como "realidade" e o que também nossa ideologia mostrou ser apropriado que a criança perceba dessa criação cultural que é o mundo e todas as relações nele contidas.
A semelhança dos componentes modalizadores também nos faz reiterar o que foi mencionado anteriormente sobre a responsabilidade na instauração da veredicção do texto, são figuras que se repetem em uma quantidade considerável de textos. Essa possibilidade de relacionamento intertextual cria a possibilidade de entendermos a literatura infantil como sendo aquela que contém em sua manifestação textual a
espacialidade, a temporização e a actorização constantes de outros textos, não somente no que se refere à pararrealidade conseguida com a releitura do mundo, mas também a crença de que existe um universo literário infantil, tendo como sujeitos enunciadores indivíduos apropriados de um "saber-fazer" adulto.
Se percebemos que a um plano de expressão com figurativizações didatizadas (infantis) não implica um plano de conteúdo com temas do mesmo valor, visto trabalharem-se temas inerentes às próprias sociedades, maneiras de conceber o mundo e todos eles temas atemporais, deve haver um ponto de interseção no interior das estruturas textuais, responsável pelo surgimento de um nível de manifestação chamado de "Literatura Infantil".
Esse ponto é percebido quando tem início o processo de discursivização, ponto em que o enunciador escolhe, entre outros elementos, o seu enunciatário, e, conseqüentemente, opta por essa ou aquela manifestação textual, mais ou menos figurativizada
(didatizada), tudo com o objetivo de que o seu texto (e valores nele contidos) seja aceito.
Podemos esquematizar da seguinte maneira:
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A
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B
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Manifestação
Textual
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“didatizada”
INFANTIL
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“não-didatizada”
OUTROS-TEXTOS
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Estruturas
discursivas
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“INFANTIL” + “ADULTO”
(início da didatização)
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IDEOLOGIA
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Estruturas
sêmio-narrativas
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relações humanas
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(confronto de valores humanos e historicamente
produzidos)
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AXIOLOGIA
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(Estrutura Social)
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Entendemos a estrutura social como sendo a mantenedora de um
universo pedagógico do qual são retiradas as figuras que circulam na literatura que agora analisamos a "infantil" (A), enquanto que a opção por figuras voltadas ao mundo concebido como "adulto" fará produzir outras modalidades de textos (ou literaturas), elaboradas para se relacionarem com sujeitos enunciatários "adultos" (B), fazendo virem à tona valores também humanos e históricos, mas por intermédio de outras manifestações textuais e com outras intenções.
Esse ponto em que há o cruzamento dos dois universos estaria restrito ao momento em que ocorre a transferência de temas (abstração) para as figuras (concretização), ou seja, no ponto em que o sujeito da enunciação elabora o processo de discursivização, em que o enunciador escolhe para que venha à tona um texto "vestido" com uma roupagem
INFANTIL.
Dessa conclusão, verificamos que a reiteração de determinadas figuras em uma quantidade considerável de textos, produzidos com a finalidade de fazer - crer serem infantis, são o resultado de um processo de tipologização de manifestações textuais e didatização de figuras (componentes
modalizadores), fato que tem a sua origem juntamente com as primeiras adaptações de textos para o público infantil, no início do século XIX.
As crianças, portanto, continuam lendo as mesmas coisas que os adultos, como acontecia anteriormente ao surgimento da Pedagogia e à criação do universo infantil, só que agora os temas surgem numa roupa confeccionada através da história, roupa essa que às vezes nos ilude e mascara os valores criados pela sociedade, valores que são a própria construção histórica dos homens.
Temos, então, a manutenção do pensamento dominante na sociedade sendo feita através de um mecanismo que disfarça o caráter doutrinário encontrado em discursos como o religioso e o político, pelo
mito que se construiu de Literatura Infantil.
ABSTRACT: We demonstrate the existence of the so called
"Child Literature" only targeting the level of text
manifestation. In the discursivization process, the subject of enunciation(utterance) chooses
"proper" universe, however the deep structure of the texts keeps the values historically produced by
society.
KEY WORDS: Child literature; figurativization; enunciation; discourse.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GREIMAS, A.J.; COURTÉS, J. Dicionário de semiótica. São Paulo,
Cultrix. 1979.
LOPES, E. Metáfora: da retórica à semiótica, São Paulo, Atual,1986.
Bibliografia Complementar
BRANDÃO, H.H.N. . Introdução à análise do discurso. Campinas, Editora da UNICAMP. 1991.
COURTÉS, J. Introdução à semiótica narrativa e discursiva. Coimbra,
Almedina. 1979.
DUBOIS, J. et al. Dicionário de lingüística. São Paulo, Cultrix, 1991.
FOUCAULT, M. Arqueologia do saber. Petrópolis, Vozes, 1971.
GREGORIN FILHO, J.N. . A roupa infantil da literatura. Dissertação de Mestrado, F.C.L. da UNESP de Araraquara, 1995.
MAINGUENEAU, D. Novas tendências em análise do discurso. Campinas, Pontes. 1993
VÉRON, E. A produção de sentido. São Paulo, Cultrix, 1980.
1Mestre e Doutorando em Letras pela UNESP/Araraquara, Coordenador do Curso de Letras do Centro Universitário Barão de Mauá.
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