Revista do Centro Universitário Barão de Mauá, v.1, n.2, jul/dez 2001  


A VIVÊNCIA DOS FORMANDOS EM ENFERMAGEM E OBSTETRÍCIA NA 
ELABORAÇÃO DE SUA MONOGRAFIA*

  Andréa de Souza Fernandes1
Nilza Teresa Rotter Pelá2


RESUMO: Trata-se de uma pesquisa exploratória que teve por objetivo levantar entre enfermeiros recém formados como vivenciaram o processo de elaboração de sua monografia acadêmica de término de curso. Foram estudados 32 enfermeiros que haviam realizado monografia como requisito para obtenção do grau de bacharel. A maioria dos sujeitos relatou dificuldades no processo prevalecendo a dificuldade: falta de técnica redacional. Evidenciou-se que a grande maioria dos sujeitos mencionou sentimentos e/ou emoções positivas ao ver sua monografia concluída.

UNITERMOS: trabalho científico, enfermagem


          A pesquisa na graduação em enfermagem é pouco enfatizada em algumas universidades, talvez por se dar mais atenção às investigações científicas produzidas nos cursos de pós-graduação, mestrado e doutorado.
          O aluno na graduação em enfermagem que realiza pesquisa adquire uma visão mais crítica do mundo, aprende a trabalhar em equipe, tem inclinação a auto-aprendizagem, e utiliza os trabalhos científicos na resolução de problemas, seja no âmbito profissional ou social (PADILHA & CARVALHO, 1993).
          Para dar estímulo aos alunos graduados para que realizem pesquisas, foi criado pela CAPEs o Programa Especial de Treinamento -PET (ALMEIDA et al., 1995). Também é importante considerar o envolvimento do aluno em programas de iniciação científica, como por exemplo: PIBIC (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação Científica), ligado ao Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento -CNPq (TIPPLE et al., 1994).
          A importância de se fazer pesquisa durante a graduação em enfermagem, é um excelente momento para aprendizagem, propicia crescimento profissional e é uma forma de se aprimorar o conhecimento, e também realização profissional e pessoal, o que leva o graduando a crer que a curiosidade e o desconhecimento sobre um determinado fato são os elementos que nos impulsiona a uma investigação (TIPPLE et al., 1994)
          Para as mesmas autoras, a pesquisa é uma oportunidade para a integração com outros profissionais, sendo uma maneira de divulgar a enfermagem para outros profissionais, como para o desenvolvimento de um trabalho multiprofissional.
          A continuidade das pesquisas após a graduação, por alunos que queiram realizá-las deve ser um fator para que haja estímulos da pesquisa na graduação, porque não basta a existência de um conhecimento, ele precisa ser aplicado para resultar em benefícios. 
          Introduzir a metodologia de pesquisa nos cursos de graduação deve ser responsabilidade da escola tendo por finalidade estimular a pesquisa, explicando o papel da metodologia na profissão, na ciência e como fazer sua utilização (LOPES, 1983).
          Não introduzir a metodologia de pesquisa nos cursos de graduação, faz com que os alunos tenham dificuldade no campo prático em discutir com os outros colegas trabalhos científicos. Os achados demonstram que os cursos de graduação têm se preocupado mais com a bioestatística do que com Metodologia de pesquisa, assim se houver introdução da metodologia de pesquisa nos cursos de graduação poderá, então, estimular os alunos durante e após o curso, a pesquisar (LOPES, 1983).
          A obrigatoriedade da monografia para o término do curso de enfermagem tem forçado aos alunos a se dedicarem a pesquisa de maneira mínima, deixando de lado o interesse em produzir pesquisas apenas após a formatura (ALMEIDA et al, 1995; LOPES, 1983; PADILHA & CARVALHO, 1993; PAGLIUCA & PEREIRA, 1995).
          No ano de 1996, segundo ADAMI et al. (1996) havia no Brasil 100 cursos de graduação em enfermagem, oferecendo programas de iniciação científica havia também os cursos realizados pela ABEn, que tinham por objetivo orientação e execução das pesquisas aos alunos de graduação.
          A avaliação dos processos que têm como meta avaliar a inserção de novas atividades no ensino devem constantemente ser implementadas não só quanto ao produto, mas também, quanto ao processo. Assim o presente estudo, que é uma pesquisa exploratória, teve por objetivo levantar entre enfermeiros recém formados como vivenciaram o processo de elaboração de sua monografia acadêmica de término de curso.


Metodologia

          Foram enviados 45 questionários a recém formados de um curso de enfermagem de uma escola privada do interior do estado de São Paulo que há dois anos havia introduzido a elaboração de monografia no último ano do curso como requisito para a obtenção do grau de bacharel em enfermagem. Destes 43 questionários, 33 foram devolvidos sendo um em branco. Desta forma a amostra do presente estudo ficou constituída de 32 sujeitos.
          Para a coleta de dados elaborou-se um questionário, composto por: identificação do sujeito e de três perguntas das quais foram duas abertas e uma fechada. Na primeira pergunta os sujeitos eram argüidos sobre a crença de serem capazes de escrever uma monografia, quando iniciaram o curso, tendo como possibilidade de resposta: sim ou não e o porque; na segunda pergunta atentou-se em verificar quais as dificuldades encontradas na elaboração da monografia no que se referia a: - referência bibliográfica, assistência do orientador, falta de treino de leitura, falta de técnica redacional e outros, com alternativas de resposta: sim ou não em cada dificuldade apresentada; com a terceira questão levantou-se qual a emoção sentida pelo sujeito ao ver sua monografia pronta. 


Resultados

          Dos 32 sujeitos estudados 4 (12,5%) eram do sexo masculino e 28 (87,5%) do sexo feminino. As idades variavam de 21 a 39 anos, encontravam-se na faixa etária de 20 |-- 25 anos,12 sujeitos (40,0%); na de 25 |-- 30, 7 (23,3%); de 30 |-- 35, 6 (20,0%) de 35 |-- 40, 5 (16,7%) sendo que 2 sujeitos não responderam
          A maioria da amostra, como já era de se esperar, era do sexo feminino com idade inferior a 30 anos.
          O Quadro 1 apresenta os resultados da segunda questão: "quando iniciou o curso de enfermagem, você acreditava que seria capaz de escrever uma monografia".

Quadro 1 - Distribuição dos 32 sujeitos quanto sua crença no
início do curso para realizar uma monografia

CRENÇA

F

%

Não

23

71,9

Sim

8

25

Sem resposta

1

3,1

Total

32

100


          A maioria dos sujeitos não acreditava na sua capacidade de elaborar uma monografia no término do curso, entretanto 8 sujeitos se sentiam capazes e 1 não respondeu.
          Entre os que responderam "não", os motivos mais mencionados foram: - não sabia que ia realizar uma monografia e ignorava o que era uma monografia. Outros motivos citados foram despreparo no ensino anterior; "folclore" transmitido na faculdade; dificuldade redacional; sentia-se incapaz; não tinha hábito de leitura; duvidava de sua capacidade de sintetizar idéias de outros autores; dificuldade em metodologia científica e ansiedade.
          Dentre os que se sentiam capazes a autoconfiança e a percepção de que o estudo viabiliza tarefas acadêmicas, foram os mais destacados.
          Questionados quanto as dificuldades encontradas para a elaboração da monografia, 2 sujeitos não apontaram nenhuma dificuldade nos itens referências bibliográficas, assistência do orientador, falta de treino de leitura, falta de técnica redacional. As respostas dos 30 outros sujeitos encontram-se apresentadas no Quadro 2.

Quadro 2- Distribuição dos 30 sujeitos que apontaram algum tipo de dificuldade para 
elaborar sua monografia

 

Sujeito

Referência bibliográfica

Assistência do orientador

Falta de treino de leitura

Falta de técnica redacional

 

Outros*

 

Total

F.D.S.S

X

X

X

X

 

4

I.C.M

X

X

X

X

 

4

S.C.

X

X

X

X

 

4

P.C.A.

X

 

X

X

X

4

A.F.M.

 

X

X

X

X

4

F.S.S.

X

 

X

X

 

3

A.C.E.

X

 

X

X

 

3

A.C.A.

 

X

X

X

 

3

M.G.S..

 

X

 

X

X

3

L.M.P.

 

X

 

X

X

3

S.M.B.R

 

X

 

X

X

3

A.E.G.

X

X

 

X

 

3

E.B.Q.

 

X

 

X

X

3

A.S.M.

 

X

 

X

 

2

A.A.

 

X

 

X

 

2

A.A.T.

X

X

 

 

 

2

C.L.E.

X

 

 

X

 

2

D.L.P.

 

 

X

X

 

2

J.A.L.

 

X

 

X

 

2

J.G.

X

 

 

X

 

2

L.A.P.

X

 

 

 

X

2

M.S.B.

 

 

X

X

 

2

M.C.P.C

 

 

 

X

X

2

M.A.

 

 

X

X

 

2

V.A.A.

 

 

X

X

 

2

V.C.V.

 

 

 

X

X

2

H.P.

 

X

 

 

X

2

A.S.C.

 

 

 

X

 

1

D.A.M.

 

 

X

 

 

1

E.A.S.P.

 

 

X

 

 

1

TOTAL

11

15

14

25

10

75

*Outros - falta de conhecimento de inglês - 2; medo de não terminar ou realizar o trabalho - 2, dificuldade com o digitador, falta de tempo - 4; dificuldade em conciliar trabalho noturno, faculdade e vida familiar - 2.


          A maior freqüência, 25 (83,3%), foi a dificuldade que diz respeito à "falta de técnica redacional", seguido de "assistência do orientador" 15 (50%), como terceiro colocado "falta de treino de leitura"14 (46,6 %); a dificuldade "referência bibliográfica" foi mencionada por 11 sujeitos (36,6%) e finalmente "outros" com referência 10 (33,3%).
          A dificuldade relativa a falta de técnica redacional tem suas raízes na deficiência no ensino de 1º e 2º grau sendo que na faculdade pode ser minimizada embora, o acumulo de atividade acadêmicas constitua-se em fator de limitação de tempo para o desenvolvimento desse comportamento.. Chama a atenção o fato de que 12 (48,0%) sujeitos evocaram a dificuldade de falta de treino redacional, também apontam a dificuldade de treino de leitura, vindo a reforçar a tese de que quem lê pouco redige mal.
          Quanto a dificuldade de assistência do orientador 15 (53,5%) dos sujeitos a referiram evocando como principal motivo a dificuldade de conciliar horário.
          Dificuldade relativa às referências bibliográficas foi mencionado por 11 (34,4%) alunos, o que nos parece um número alto considerando ser a cidade onde o trabalho foi realizado um grande centro universitário com inúmeras bibliotecas e arquivos que viabilizam um vasto material de consulta; bem como recursos computacionais disponíveis. Talvez o fato se deve muito mais a falta de treinamento para utilizar estes recursos do que a falta deles.
          O tempo disponível embora de pouca expressividade aparece mencionado por 4 (12,5%) dos sujeitos bem como, o medo de não ser capaz de realizar o trabalho, mencionado por 3 (9,4%) dos sujeitos.
          As respostas à questão "qual foi a emoção de ver sua monografia pronta" encontram-se apresentadas no Quadro3.

Quadro 3 - Sentimentos e emoções expressas pelos 32 alunos estudados.

Sentimentos / emoções

F

%

Ser capaz

11

23,9

Satisfação

4

8,7

Felicidade

4

8,7

Sentimento maravilhoso

3

6,5

Orgulho

3

6,5

Decepção

3

6,5

Alívio

2

4,3

Gratificação

2

4,3

Auto confiança

2

4,3

Realização

2

4,3

Transpor obstáculos

1

2,2

Incrível

1

2,2

Progresso

1

2,2

Alegria

1

2,2

Válido

1

2,2

Algo indescritível

1

2,2

Aumento da auto estima

1

2,2

Sensação de ser o autor de um livro

1

2,2

Vontade de chorar

1

2,2

Sem resposta

1

2,2

TOTAL

46 *

100

         
          Observamos no quadro acima, que os sujeitos não relataram só as suas emoções, mas também seus sentimentos. Destaca-se que a maioria dos sujeitos relatou mais de uma emoção e/ou sentimento, perfazendo um total de 46 relatos.
          O sentimento de maior freqüência foi o de "ser capaz", 11 (23,9%), seguido por "satisfação" 4 (8,7%) e "felicidade" também 4 (8,7%), a seguir com 3 (6,5%) respostas "sentimento maravilhoso" e "orgulho". Prevalecem assim, relatos de emoções e ou sentimentos positivos em relação ao fato de concluir uma monografia.
          Os sentimentos de decepção relatados por 3 (6,5%) sujeitos foi justificado pelo fato de terem recebido uma avaliação abaixo de suas expectativas.

Conclusão

          Mesmo considerando a limitação do número dos sujeitos estudados nos foi possível visualizar como eles vivenciaram o processo de elaboração de suas monografias acadêmicas de término de curso.
          A maioria dos sujeitos relatou dificuldades no processo prevalecendo a dificuldades "falta de técnica redacional".
          Evidenciou-se que maioria dos sujeitos mencionou sentimentos e/ou emoções positivas ao ver sua monografia concluída.
          Sugerimos que este processo de avaliação continue com os egressos desta escola para que o processo possa ser continuadamente aperfeiçoado.  


ABSTRACT:: This is an exploratory research aiming at assessing how nurses who had recently graduated had experienced the process of elaboration of an academic monograph at the completion of their undergraduate nursing program. Thirty-two nurses who had written a monograph as a requirement for a baccalaureate degree were studied. Most of the subjects reported having faced difficulties in that process with the prevalence of the following difficulty: lack of technical writing skills. It was shown that most of the subjects mentioned having positive feelings and/or emotions upon seeing their concluded monographs.

KEY WORDS: scientific prodution, nursing


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADAMI, N.P. et al. Situação da pesquisa em enfermagem em hospitais do município de São Paulo. Rev. Latino am. Enfermagem, v.4, n.1, p.5-20, 1996.
ALMEIDA, M.C.P. de, et al. A pesquisa no ensino de pós graduação em enfermagem "Stricto Sensu". In:_ SEMINÁRIO NACIONAL DE PESQUISA EM ENFERMAGEM, 8. Ribeirão Preto, 1995. Anais. Ribeirão Preto, Associação Brasileira de Enfermagem, 1995, p 16-32.
LOPES, C. M. Produção de conhecimento por enfermeiros assistenciais: sua utilização na prática. Ribeirão Preto, 1990, 185 p. Tese (Doutorado). Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.
PADILHA, M.I.C.S.; CARVALHO, M.T.C. de. O aluno de graduação e a pesquisa científica. Rev. Esc. Enf. USP, v. 27, n. 2, p. 281-395, 1998.
PAGLIUCA, L.M.F.; PEREIRA, M.S. Pesquisa na graduação em enfermagem. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE PESQUISA EM ENFERMAGEM, 8, Ribeirão Preto, 1995. Anais. Ribeirão Preto, Associação Brasileira de Enfermagem, 1995, p. 122-123.
TIPPLE, A. E. V. Pesquisa na graduação em enfermagem: visão do estudante. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ENFERMAGEM, 46, Porto Alegre, 1994. Síntese. Porto Alegre, Porto Alegre, Associação Brasileira de Enfermagem, 1994. p. 336-337.


* Parte da monografia apresentada ao Centro universitário Barão de Mauá como requisito para a obtenção do grau de bacharel
1
Enfermeira da Santa Casa de Bebedouro, formada pelo Centro Universitário Barão de Mauá
2Enfermeira-professora universitária aposentada- Orientadora