Revista do Centro Universitário Barão de Mauá, v.1, n.2, jul/dez 2001  


PRISIONEIRO DO SERVIÇO E DA FACULDADE: O MODO DE VIDA DO ESTUDANTE DE ENFERMAGEM TRABALHADOR DA ENFERMAGEM

 

PRISIONEIRO DO SERVIÇO E DA FACULDADE: O MODO DE VIDA DO

ESTUDANTE DE ENFERMAGEM TRABALHADOR DA ENFERMAGEM

Zigmar Borges Nunes1

Giovana Negri2

Gislaine Aparecida Montejani3

Joyce Maria Worschech Gabrielli4

Nilza Teresa Rotter Pelá5

Resumo: Foram entrevistados 61 estudantes de enfermagem, trabalhadores da enfermagem, buscando compreender como esta dupla jornada, trabalho e estudo, afetava o atendimento de suas necessidades básicas. Utilizou-se a técnica de entrevista semidiretiva, sendo os dados quantitativos analisados pela estatística descritiva e as falas dos sujeitos, pela análise de prosa (ANDRÉ, 1983). Evidenciou-se que a fadiga, o cansaço e o sono prejudicaram a vida de relação desses sujeitos, afastando-os do convívio social, das relações familiares, do companheirismo e do namoro. Identificou-se também que mesmo tendo um estilo de vida conturbado, 41% dos alunos entrevistados passou a se respeitar mais e a acreditar que os sacrifícios atuais são compensadores.

 

Unitermos: estudante de enfermagem; trabalhador de enfermagem; dupla jornada.

Introdução

 

Convivendo com graduandos de enfermagem de uma instituição particular, temos observado que há duas categorias estudantis. De um lado nos deparamos com uma população jovem, ativa, que participa da maioria dos eventos propostos; por outro lado, pessoas com características diferentes, pessoas que dormem durante ou nos intervalos das aulas, que chegam atrasadas ou se retiram antes do término das mesmas. A faixa etária é superior, sendo que a maioria é arrimo de família.

Contato mais prolongado com esses alunos evidenciou que aquela parcela mais ativa era composta por estudantes não-trabalhadores e a outra parcela, por estudantes de enfermagem trabalhadores da enfermagem.

COSTA (1992), em sua dissertação de mestrado, procurou compreender o porquê do retorno de trabalhadores da enfermagem aos bancos escolares em busca de educação de nível superior, apesar das dificuldades que enfrentam, bem como o que eles esperam do diploma de enfermeiro.

Essa autora identifica que as dificuldades encontradas pelos estudantes-trabalhadores de enfermagem, são superadas pela "auto-imagem de vencedores como recompensa pelo esforço pessoal" (COSTA, 1992).

As características e as relações do estudante-trabalhador com seus professores foram analisadas por NAKAMAE & COSTA (1988) e COSTA (1992), que concluíram ser este segmento

de alunos "mal-compreendido pelos docentes de enfermagem" e que a maioria do grupo de estudantes-trabalhadores de enfermagem está em escolas privadas.

Esses trabalhos foram importantes estudos para a compreensão desse grupo de estudantes, entretanto, permanecia a inquietação de melhor compreender o cotidiano da vida dessas pessoas com duas e, às vezes, três jornadas de trabalho.

MASLOW (1954) hierarquiza as necessidades humanas básicas em: necessidades fisiológicas; segurança e tranqüilidade; companheirismo e afeição; estima e respeito próprio; e auto-realização.

 

Necessidades Fisiológicas: são relacionadas com a motivação do comportamento e equilíbrio humano, isto é, regulação das funções respiratória, nutritiva e excretora, controle hídrico, temperatura e proteção do organismo, também se relacionam ao repouso, sono e à evitar a dor. São necessidades potentes que, quando não satisfeitas, dominam a mente consciente.

 

Necessidade de Segurança e Tranqüilidade: relacionada tanto à segurança física como à psicológica. Refere-se ao poder do indivíduo sentir-se seguro e tranqüilo em relação à proteção, morte, vida social e econômica, e perante uma doença.

 

Necessidade de Companheirismo e Afeição: relacionada ao desejo de companhia e do reconhecimento do indivíduo por outras pessoas.

 

Necessidade de Estima e Respeito Próprio: relacionada à necessidade de consideração, ou seja, de a pessoa ser apreciada e respeitada pelos outros e por si mesma.

 

Necessidade de Auto-Realização: é relacionada à realização pessoal, expressão da criatividade e sentimento de utilidade.

. Frente à compreensão da inter-relação dessas necessidades, passamos a indagar como o aluno de enfermagem, trabalhador da enfermagem, que por duas jornadas de atividades busca atender às necessidades de seus clientes, estava tendo as suas próprias necessidades atendidas.

Assim motivados e na falta de bibliografia nacional a este respeito, nos propusemos a realizar o presente estudo que tem como objetivos:

1º) Identificar, em uma escola privada, os alunos de enfermagem trabalhadores da enfermagem;

2º) Levantar, a partir da fala desses alunos, como a dupla jornada, estudo e trabalho, influencia o atendimento de suas necessidades humanas básicas.

Material e Método

O presente estudo foi realizado em uma faculdade particular, de uma cidade do interior do estado de São Paulo.

O curso de enfermagem é ministrado em tempo integral, com duração de 4 anos, com 189 alunos matriculados por ocasião da coleta de dados.

População-alvo e amostra

Considerou-se como população-alvo os alunos regularmente matriculados no curso de graduação em enfermagem que no momento da coleta de dados estivessem cursando o 2º, 3º e 4º anos e que concordassem em participar do estudo.

Excluiu-se os alunos de 1º ano por dois motivos: ainda não iniciaram seu período de estágio e pelo fato de, ao final do 1º semestre, ser considerável a evasão escolar.

Assegurou-se o anonimato aos sujeitos do estudo e obteve-se a aquiescência verbal para publicação dos resultados.

 

Instrumento de Coleta de dados

Elaborou-se um formulário para orientar uma entrevista semidiretiva, na qual se buscava obter dados sobre a caracterização dos alunos (idade, sexo, estado civil, renda, com quem reside, ano que está cursando, atividade exercida na enfermagem, tempo de exercício profissional, jornada de trabalho, turno de trabalho e jornada de estudo), bem como suas falas sobre como estavam sendo atendidas suas necessidades básicas.

Este instrumento foi testado com 10 alunos do 1º ano, que não compunham a amostra em estudo.

Durante o teste piloto, as entrevistadoras foram treinadas e padronizadas para a coleta de dados.

Análise dos resultados

Utilizou-se a estatística descritiva para a apresentação de dados quantitativos.

A análise das falas dos sujeitos foram feitas utilizando-se a Análise de Prosa (ANDRÉ, 1983).

Resultados e Discussão

Dos 126 alunos de graduação de enfermagem que cursavam 2º, 3º e 4º anos, 72 (57,14%) eram trabalhadores de enfermagem e exerciam funções de atendente, auxiliar e técnico de enfermagem.

Dessa população foi extraída a amostra (SANCHES, 1979), composta de 61 sujeitos, uma vez que 3 eram os alunos envolvidos na coleta de dados ao presente estudo; 3 recusaram-se a responder e 5 não foram entrevistados por dificuldade de serem contatados.

Como já era de se esperar, a maioria é constituída de mulheres.

Assim, como NAKAMAE & COSTA (1988), a maioria dos estudantes (47 - 77,05%) está acima da faixa etária esperada (20 |- 25 anos) em estudantes universitários, destacando-se 5 (8,19%) sujeitos com 40 anos ou mais.

Esses estudantes, na maioria auxiliares de enfermagem, são solteiros, trabalham em turno noturno, com jornada de trabalho de 40 horas semanais, jornada de estudo de 35 h |- 40 h semanais e declaram ter a renda principal da família.

Esses dados sugerem a sobrecarga a que se submetem esses estudantes, sujeitando-se sobretudo a possíveis privações de sono.

O Quadro 1 apresenta as características da amostra.

Os dados da Tabela 1, que apresenta a jornada de estudo e o turno de trabalho, os da Tabela 2, na qual se relaciona jornada de estudo e o intervalo de sono, bem como a Tabela 3, que apresenta a jornada de trabalho e o período contínuo em vigília, evidenciam essa sobrecarga influenciando no período de sono.

Tabela 1 - Distribuição dos estudantes trabalhadores, segundo a jornada semanal de

estudo e turno de trabalho

Quadro 2- Distribuição dos 31 estudantes trabalhadores, segundo referência dos

lugares ou situações, em que dormem fora de suas casas.

Todas essas situações criam uma condição de vulnerabilidade desses sujeitos, que podem ser geradoras de insegurança, o que se evidencia pela manifestação de diferentes tipos de medo, como os apresentados no Quadro 3.
 

Quadro 3 -Distribuição dos estudantes trabalhadores segundo a categoria gerada

pela temática medo ao dormir em locais públicos.

Foi pedido aos alunos entrevistados que falassem sobre a qualidade de seu sono. Suas falas, dentro desse tópico, geraram as categorias: péssimo, ruim, insuficiente, regular, bom e excelente, apresentadas no Quadro 4.

Quadro 4 - Distribuição dos estudantes trabalhadores segundo a categorias geradas

pela temática qualidade de sono

A necessidade de segurança e tranqüilidade acha-se afetada nesse grupo de estudantes que, diariamente, enfrentam situações de medo e ansiedade. Isso se dá em função do déficit de sono, que hierarquicamente, segundo MASLOW (1954), é uma necessidade fisiológica, portanto, mais potente.

Ao déficit quantitativo, soma-se o déficit qualitativo, uma vez que 11 (18,03%) entrevistados avaliaram seu sono como péssimo ou ruim; outros 11 (18,03%), como agitado e 6 (9,83%) qualificam seu sono como regular.

Para o adulto jovem, livre de pressões sociais e profissionais, o sono normal típico é o sono noturno, pois o homem é um animal diurno (CUNHA, 1995).

A privação do sono, evidente entre os sujeitos estudados, pode trazer conseqüências descritas por DU GAS (1984) e CUNHA (1995), tais como alteração da capacidade funcional, irritação,

nervosismo, apatia, dificuldade de lembrar-se das coisas e "pequenas dificuldades podem tornar-se grandes problemas".

Todos esses problemas levam, no entender de Ficher & Paraguay apud CUNHA, (1995), a fadiga para a vida familiar, sexual e social desse indivíduo. Assim, podemos supor que a necessidade de companheirismo e afeição também se acham afetadas.

Isso fica evidenciado nos Quadros 5 e 6 que apresentam as categorias das temáticas relacionamento familiar e com amigos.

Quadro 5 - Distribuição de 59* estudantes trabalhadores segundo categorias na

temática relacionamento familiar


Quadro 6 - Distribuição dos 44* estudantes trabalhadores segundo categorias na

temática relacionamento com os amigos

Preocupante é o número de entrevistados que referem afastamento dos familiares e de amigos, comprometendo, assim, o atendimento às suas necessidades de companheirismo e afeição.

"O homem é por natureza um ser gregário, avesso ao isolamento" (BRUNNER & SUDDARTH, 1977, SMELTZER & BARE, 1993). Isso é ensinado ao aluno que, contraditoriamente, tem que se desvencilhar de seus amigos e familiares na busca de sua formação profissional.

Também, evidente prejuízo dessa necessidade pode ser constatado no Quadro 7, onde observa-se o alto contingente de alunos solteiros com o namoro prejudicado por cansaço ou falta de tempo.

Quadro 7 - Distribuição dos 44* estudantes trabalhadores segundo categorias na

temática namoro

Esses dados corroboram a colocação de MASLOW (1954) que, quanto mais superiores são as necessidades, menos imperativa se torna a sobrevivência; portanto, sucumbem às necessidades de nível hierárquico inferior, aqui representadas pelo sono e fadiga.

Também das 17 entrevistadas com vida marital, 9 (52,94%) relatam dificuldades na vida conjugal, em função de seu modo de vida. (Quadro 8).

Quadro 8 - Distribuição dos 17 estudantes trabalhadores segundo categorias geradas

pelas falas de temática relacionamento conjugal.

Diante do descrito, há que se considerar que, se a necessidade de afeto e consideração é sufocada neste estilo de vida, a vida sexual desses sujeitos também estará alterada, como pode ser observado no Quadro 9.

Quadro 9 - Distribuição dos 58* estudantes trabalhadores segundo categorias na temática relacionamento sexual.

 

Assim vivendo, esses alunos trabalhadores sentem e verbalizam as privações e a fadiga desse viver e, mesmo assim, ou por causa disso, 25 sujeitos referem que agora se respeitam mais e 16 sujeitos acreditam que os sacrifícios atuais serão compensadores. Os demais sujeitos referem desejo de desistir pelo cansaço, sobrecarga, cobranças, desilusão e carências.

Esse modo de vida pode ser sintetizado na fala de duas alunas "... me sinto prisioneira do serviço e da faculdade..." "... não estou vivendo como queria..." "... futuramente espero ter uma vida melhor..."

Conclusão

A partir dos dados, identificou-se um alto contingente de alunos trabalhadores da enfermagem e ficou evidente que essa dupla jornada, estudo e trabalho na enfermagem, leva a um estilo de vida onde a necessidade fisiológica de sono e as necessidades de companheirismo, afeto, segurança e tranqüilidade não são atendidas para a maioria dos alunos.

Contraditoriamente, esses alunos são estimulados a buscar estratégias de atendimento de seus clientes, de forma a assegurar que todas as suas necessidades sejam atendidas!

Entendemos que esta problemática é de difícil solução pelos determinantes sociais que a envolve, entretanto, a busca da implantação de currículos alternativos, talvez pudesse minimizar as dificuldades desse segmento de estudantes de enfermagem.

 

Referências Bibliográficas:

ANDRÉ, M.E.D.A. Texto, Contexto e Significados: algumas questões na análise de dados qualitativos. Cad. Pesq., São Paulo v. 45, 66-71, maio 1983.

BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. S. Enfermagem Médico-Cirúrgica, 3ª ed. - Rio de Janeiro, Interamericana, 1977.

COSTA M. L. A. S. O Estudante - trabalhador de enfermagem: desvelando esta nova realidade. São Paulo, 1992 . 125p. Dissertação (Mestrado) - Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo.

CUNHA, M. T. Efeitos biopsicossociais do trabalho em turno noturno. Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, 1995. (mimeografado)

DU GAS, B. W. Enfermagem Prática. 4ª ed. Rio de Janeiro. Guanabara, 1984.

MASLOW, A. H. Motivacion Y Personalidad. Barcelona, Harper & Brother, 1954.

NAKAMAE, D.D.; COSTA, M. L. As semelhanças e diferenças no perfil do estudante em escolas de enfermagem oficiais e particulares da região da grande São Paulo. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ENFERMAGEM, 40, Belém, 1988. Programa. Belém, Associação Brasileira de Enfermagem, 1988, p. 132-8.

SANCHES, O. Qual o tamanho da minha amostra? Enfermagem em Novas Dimensões. São Paulo,v. 5, n. 3, p.163-167, 1979.

          SMELTZER, S.C. & BARE, B. G. - Brunner/Suddarth: tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 7ª ed. Rio de           Janeiro, Guanabara Koogan , 1993. v.1.

1Enfermeira do Serviço de Atendimento 24hs do Hospital São Francisco, formada pelo Centro Universitário Barão de Mauá

2Enfermeira formada pelo Centro Universitário Barão de Mauá

3Enfermeira formada pelo Centro Universitário Barão de Mauá

4Enfermeira Mestre em enfermagem, Coordenadora do Curso de Enfermagem do Centro Universitário Barão de Mauá

5Enfermeira, Professor Titular aposentada

ABSTRACT: Nursing student-workers (n=61) have been interviewed in order to try and understand how this double function - work and school - has affected their basic needs. Semi direct approch has been used and the quantitative data analysed according to the descriptive statistics and the subjects'talkings by the speaking approach (ANDRÉ, 1983). It was clear that stiffness, tiredness and sleepness affected the subjects'relationship life, pulting them out of social life, family relationship, companionship and dating. It has also been noticed that most of the intervieived students besides the a disturbed lifestyle began to respect and believe that the present sacrifices are worthing.

 

Uniterms - nursing student; nursing worker; double function.