|
PRISIONEIRO DO SERVIÇO E DA FACULDADE: O MODO
DE VIDA DO ESTUDANTE DE ENFERMAGEM TRABALHADOR DA ENFERMAGEM
|
PRISIONEIRO
DO SERVIÇO E DA FACULDADE: O MODO DE VIDA DO
ESTUDANTE
DE ENFERMAGEM TRABALHADOR DA ENFERMAGEM
Zigmar
Borges Nunes1
Giovana
Negri2
Gislaine
Aparecida Montejani3
Joyce
Maria Worschech Gabrielli4
Nilza
Teresa Rotter Pelá5 |
|
|
Resumo:
Foram entrevistados 61 estudantes de enfermagem, trabalhadores da
enfermagem, buscando compreender como esta dupla jornada, trabalho
e estudo, afetava o atendimento de suas necessidades básicas.
Utilizou-se a técnica de entrevista semidiretiva, sendo os dados
quantitativos analisados pela estatística descritiva e as falas
dos sujeitos, pela análise de prosa (ANDRÉ, 1983). Evidenciou-se
que a fadiga, o cansaço e o sono prejudicaram a vida de relação
desses sujeitos, afastando-os do convívio social, das relações
familiares, do companheirismo e do namoro. Identificou-se também
que mesmo tendo um estilo de vida conturbado, 41% dos alunos
entrevistados passou a se respeitar mais e a acreditar que os
sacrifícios atuais são compensadores.
Unitermos:
estudante de enfermagem; trabalhador de enfermagem; dupla jornada.
|
|
Introdução
Convivendo
com graduandos de enfermagem de uma instituição particular,
temos observado que há duas categorias estudantis. De um lado nos
deparamos com uma população jovem, ativa, que participa da
maioria dos eventos propostos; por outro lado, pessoas com
características diferentes, pessoas que dormem durante ou nos
intervalos das aulas, que chegam atrasadas ou se retiram antes do
término das mesmas. A faixa etária é superior, sendo que a
maioria é arrimo de família.
Contato
mais prolongado com esses alunos evidenciou que aquela parcela
mais ativa era composta por estudantes não-trabalhadores e a
outra parcela, por estudantes de enfermagem trabalhadores da
enfermagem.
COSTA
(1992), em sua dissertação de mestrado, procurou compreender o
porquê do retorno de trabalhadores da enfermagem aos bancos
escolares em busca de educação de nível superior, apesar das
dificuldades que enfrentam, bem como o que eles esperam do diploma
de enfermeiro.
Essa
autora identifica que as dificuldades encontradas pelos
estudantes-trabalhadores de enfermagem, são superadas pela
"auto-imagem de vencedores como recompensa pelo esforço
pessoal" (COSTA, 1992).
As características
e as relações do estudante-trabalhador com seus professores
foram analisadas por NAKAMAE & COSTA (1988) e COSTA (1992),
que concluíram ser este segmento
de
alunos "mal-compreendido pelos docentes de enfermagem" e
que a maioria do grupo de estudantes-trabalhadores de enfermagem
está em escolas privadas.
Esses
trabalhos foram importantes estudos para a compreensão desse
grupo de estudantes, entretanto, permanecia a inquietação de
melhor compreender o cotidiano da vida dessas pessoas com duas e,
às vezes, três jornadas de trabalho.
MASLOW
(1954) hierarquiza as necessidades humanas básicas em:
necessidades fisiológicas; segurança e tranqüilidade;
companheirismo e afeição; estima e respeito próprio; e
auto-realização.
Necessidades
Fisiológicas:
são relacionadas com a motivação do comportamento e equilíbrio
humano, isto é, regulação das funções respiratória,
nutritiva e excretora, controle hídrico, temperatura e proteção
do organismo, também se relacionam ao repouso, sono e à evitar a
dor. São necessidades potentes que, quando não satisfeitas,
dominam a mente consciente.
Necessidade
de Segurança e Tranqüilidade: relacionada
tanto à segurança física como à psicológica. Refere-se ao
poder do indivíduo sentir-se seguro e tranqüilo em relação à
proteção, morte, vida social e econômica, e perante uma
doença.
Necessidade
de Companheirismo e Afeição: relacionada ao desejo de
companhia e do reconhecimento do indivíduo por outras pessoas.
Necessidade
de Estima e Respeito Próprio: relacionada
à necessidade de consideração, ou seja, de a pessoa ser
apreciada e respeitada pelos outros e por si mesma.
Necessidade
de Auto-Realização: é
relacionada à realização pessoal, expressão da criatividade e
sentimento de utilidade.
.
Frente à compreensão da inter-relação dessas necessidades,
passamos a indagar como o aluno de enfermagem, trabalhador da
enfermagem, que por duas jornadas de atividades busca atender às
necessidades de seus clientes, estava tendo as suas próprias
necessidades atendidas.
Assim
motivados e na falta de bibliografia nacional a este respeito, nos
propusemos a realizar o presente estudo que tem como objetivos:
1º)
Identificar, em uma escola privada, os alunos de enfermagem
trabalhadores da enfermagem;
2º)
Levantar, a partir da fala desses alunos, como a dupla jornada,
estudo e trabalho, influencia o atendimento de suas necessidades
humanas básicas.
Material e Método
O
presente estudo foi realizado em uma faculdade particular, de uma
cidade do interior do estado de São Paulo.
O
curso de enfermagem é ministrado em tempo integral, com duração
de 4 anos, com 189 alunos matriculados por ocasião da coleta de
dados.
População-alvo
e amostra
Considerou-se
como população-alvo os alunos regularmente matriculados no curso
de graduação em enfermagem que no momento da coleta de dados
estivessem cursando o 2º, 3º e 4º anos e que concordassem em
participar do estudo.
Excluiu-se
os alunos de 1º ano por dois motivos: ainda não iniciaram seu
período de estágio e pelo fato de, ao final do 1º semestre, ser
considerável a evasão escolar.
Assegurou-se
o anonimato aos sujeitos do estudo e obteve-se a aquiescência
verbal para publicação dos resultados.
Instrumento
de Coleta de dados
Elaborou-se
um formulário para orientar uma entrevista semidiretiva, na qual
se buscava obter dados sobre a caracterização dos alunos (idade,
sexo, estado civil, renda, com quem reside, ano que está
cursando, atividade exercida na enfermagem, tempo de exercício
profissional, jornada de trabalho, turno de trabalho e jornada de
estudo), bem como suas falas sobre como estavam sendo atendidas
suas necessidades básicas.
Este
instrumento foi testado com 10 alunos do 1º ano, que não
compunham a amostra em estudo.
Durante
o teste piloto, as entrevistadoras foram treinadas e padronizadas
para a coleta de dados.
Análise
dos resultados
Utilizou-se
a estatística descritiva para a apresentação de dados
quantitativos.
A
análise das falas dos sujeitos foram feitas utilizando-se a
Análise de Prosa (ANDRÉ, 1983).
Resultados e
Discussão
Dos
126 alunos de graduação de enfermagem que cursavam 2º, 3º e
4º anos, 72 (57,14%) eram trabalhadores de enfermagem e exerciam
funções de atendente, auxiliar e técnico de enfermagem.
Dessa
população foi extraída a amostra (SANCHES, 1979), composta de
61 sujeitos, uma vez que 3 eram os alunos envolvidos na coleta de
dados ao presente estudo; 3 recusaram-se a responder e 5 não
foram entrevistados por dificuldade de serem contatados.
Como
já era de se esperar, a maioria é constituída de mulheres.
Assim,
como NAKAMAE & COSTA (1988), a maioria dos estudantes (47 -
77,05%) está acima da faixa etária esperada (20 |- 25 anos) em
estudantes universitários, destacando-se 5 (8,19%) sujeitos com
40 anos ou mais.
Esses
estudantes, na maioria auxiliares de enfermagem, são solteiros,
trabalham em turno noturno, com jornada de trabalho de 40 horas
semanais, jornada de estudo de 35 h |- 40 h semanais e declaram
ter a renda principal da família.
Esses
dados sugerem a sobrecarga a que se submetem esses estudantes,
sujeitando-se sobretudo a possíveis privações de sono. |
| O
Quadro 1 apresenta as características da amostra. |
|

|
| Os
dados da Tabela 1, que apresenta a jornada de estudo e o turno de
trabalho, os da Tabela 2, na qual se relaciona jornada de estudo e
o intervalo de sono, bem como a Tabela 3, que apresenta a jornada
de trabalho e o período contínuo em vigília, evidenciam essa
sobrecarga influenciando no período de sono. |
|
|
Tabela
1 - Distribuição dos estudantes trabalhadores, segundo a jornada
semanal de
estudo
e turno de trabalho |
|
|

|
|
|
|
|

|
|
|
Quadro
2- Distribuição dos 31 estudantes trabalhadores, segundo
referência dos
lugares
ou situações, em que dormem fora de suas casas.
|
|

|
|
| Todas
essas situações criam uma condição de vulnerabilidade desses
sujeitos, que podem ser geradoras de insegurança, o que se
evidencia pela manifestação de diferentes tipos de medo, como os
apresentados no Quadro 3. |
|
|
|
Quadro
3 -Distribuição dos estudantes trabalhadores segundo a categoria
gerada
pela
temática medo ao dormir em locais públicos. |
|

|
| Foi
pedido aos alunos entrevistados que falassem sobre a qualidade de
seu sono. Suas falas, dentro desse tópico, geraram as categorias:
péssimo, ruim, insuficiente, regular, bom e excelente, apresentadas
no Quadro 4. |
|
|
Quadro
4 - Distribuição dos estudantes trabalhadores segundo a categorias
geradas
pela
temática qualidade de sono |
|

|
|
|
A
necessidade de segurança e tranqüilidade acha-se afetada nesse
grupo de estudantes que, diariamente, enfrentam situações de medo
e ansiedade. Isso se dá em função do déficit de sono, que
hierarquicamente, segundo MASLOW (1954), é uma necessidade
fisiológica, portanto, mais potente.
Ao
déficit quantitativo, soma-se o déficit qualitativo, uma vez que
11 (18,03%) entrevistados avaliaram seu sono como péssimo ou ruim;
outros 11 (18,03%), como agitado e 6 (9,83%) qualificam seu sono
como regular.
Para
o adulto jovem, livre de pressões sociais e profissionais, o sono
normal típico é o sono noturno, pois o homem é um animal diurno
(CUNHA, 1995).
A privação do sono,
evidente entre os sujeitos estudados, pode trazer conseqüências
descritas por DU GAS (1984) e CUNHA (1995), tais como alteração da
capacidade funcional, irritação,
nervosismo,
apatia, dificuldade de lembrar-se das coisas e "pequenas
dificuldades podem tornar-se grandes problemas".
Todos
esses problemas levam, no entender de Ficher & Paraguay apud
CUNHA, (1995), a fadiga para a vida familiar, sexual e social desse
indivíduo. Assim, podemos supor que a necessidade de companheirismo
e afeição também se acham afetadas.
Isso
fica evidenciado nos Quadros 5 e 6 que apresentam as categorias das
temáticas relacionamento familiar e com amigos.
|
|
Quadro
5 - Distribuição de 59* estudantes trabalhadores segundo
categorias na
temática
relacionamento familiar |
|

|
|
|
Quadro
6 - Distribuição dos 44* estudantes trabalhadores segundo
categorias na
temática
relacionamento com os amigos |
|

|
|
|
Preocupante
é o número de entrevistados que referem afastamento dos familiares
e de amigos, comprometendo, assim, o atendimento às suas
necessidades de companheirismo e afeição.
"O
homem é por natureza um ser gregário, avesso ao isolamento" (BRUNNER
& SUDDARTH, 1977, SMELTZER & BARE, 1993). Isso é ensinado
ao aluno que, contraditoriamente, tem que se desvencilhar de seus
amigos e familiares na busca de sua formação profissional.
Também, evidente
prejuízo dessa necessidade pode ser constatado no Quadro 7, onde
observa-se o alto contingente de alunos solteiros com o namoro
prejudicado por cansaço ou falta de tempo.
|
|
Quadro
7 - Distribuição dos 44* estudantes trabalhadores segundo
categorias na
temática
namoro |
|

|
|
|
Esses
dados corroboram a colocação de MASLOW (1954) que, quanto mais
superiores são as necessidades, menos imperativa se torna a
sobrevivência; portanto, sucumbem às necessidades de nível
hierárquico inferior, aqui representadas pelo sono e fadiga.
Também das 17
entrevistadas com vida marital, 9 (52,94%) relatam dificuldades na
vida conjugal, em função de seu modo de vida. (Quadro 8).
|
|
Quadro
8 - Distribuição dos 17 estudantes trabalhadores segundo
categorias geradas
pelas
falas de temática relacionamento conjugal. |
|

|
|
| Diante do
descrito, há que se considerar que, se a necessidade de afeto e
consideração é sufocada neste estilo de vida, a vida sexual
desses sujeitos também estará alterada, como pode ser observado no
Quadro 9. |
|
|
Quadro
9 - Distribuição dos 58* estudantes trabalhadores segundo
categorias na temática relacionamento sexual. |
|
|

|
|
|
Assim
vivendo, esses alunos trabalhadores sentem e verbalizam as
privações e a fadiga desse viver e, mesmo assim, ou por causa
disso, 25 sujeitos referem que agora se respeitam mais e 16 sujeitos
acreditam que os sacrifícios atuais serão compensadores. Os demais
sujeitos referem desejo de desistir pelo cansaço, sobrecarga,
cobranças, desilusão e carências.
Esse
modo de vida pode ser sintetizado na fala de duas alunas "...
me sinto prisioneira do serviço e da faculdade..." "...
não estou vivendo como queria..." "... futuramente espero
ter uma vida melhor..."
Conclusão
A
partir dos dados, identificou-se um alto contingente de alunos
trabalhadores da enfermagem e ficou evidente que essa dupla jornada,
estudo e trabalho na enfermagem, leva a um estilo de vida onde a
necessidade fisiológica de sono e as necessidades de
companheirismo, afeto, segurança e tranqüilidade não são
atendidas para a maioria dos alunos.
Contraditoriamente,
esses alunos são estimulados a buscar estratégias de atendimento
de seus clientes, de forma a assegurar que todas as suas
necessidades sejam atendidas!
Entendemos
que esta problemática é de difícil solução pelos determinantes
sociais que a envolve, entretanto, a busca da implantação de
currículos alternativos, talvez pudesse minimizar as dificuldades
desse segmento de estudantes de enfermagem. |
|
|
|
Referências
Bibliográficas:
ANDRÉ,
M.E.D.A. Texto, Contexto e Significados: algumas questões na
análise de dados qualitativos. Cad. Pesq., São Paulo v.
45, 66-71, maio 1983.
BRUNNER,
L. S.; SUDDARTH, D. S. Enfermagem Médico-Cirúrgica, 3ª
ed. - Rio de Janeiro, Interamericana, 1977.
COSTA
M. L. A. S. O Estudante - trabalhador de enfermagem: desvelando
esta nova realidade. São Paulo, 1992 . 125p. Dissertação
(Mestrado) - Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo.
CUNHA,
M. T. Efeitos biopsicossociais do trabalho em turno noturno.
Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, 1995. (mimeografado)
DU
GAS, B. W. Enfermagem Prática. 4ª ed. Rio de Janeiro.
Guanabara, 1984.
MASLOW,
A. H. Motivacion Y Personalidad. Barcelona, Harper & Brother,
1954.
NAKAMAE,
D.D.; COSTA, M. L. As semelhanças e diferenças no perfil do
estudante em escolas de enfermagem oficiais e particulares da
região da grande São Paulo. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE
ENFERMAGEM, 40, Belém, 1988. Programa. Belém,
Associação Brasileira de Enfermagem, 1988, p. 132-8.
SANCHES,
O. Qual o tamanho da minha amostra? Enfermagem em Novas
Dimensões. São Paulo,v. 5, n. 3, p.163-167, 1979.
SMELTZER, S.C. & BARE, B. G. - Brunner/Suddarth: tratado
de enfermagem médico-cirúrgica. 7ª ed. Rio de
Janeiro, Guanabara Koogan , 1993. v.1.
|
|
|
|
|
|
|
|
|
1Enfermeira
do Serviço de Atendimento 24hs do Hospital São Francisco, formada
pelo Centro Universitário Barão de Mauá
2Enfermeira
formada pelo Centro Universitário Barão de Mauá
3Enfermeira
formada pelo Centro Universitário Barão de Mauá
4Enfermeira
Mestre em enfermagem, Coordenadora do Curso de Enfermagem do Centro
Universitário Barão de Mauá
5Enfermeira,
Professor Titular aposentada
ABSTRACT: Nursing
student-workers (n=61) have been interviewed in order to try and
understand how this double function - work and school - has affected
their basic needs. Semi direct approch has been used and the
quantitative data analysed according to the descriptive statistics
and the subjects'talkings by the speaking approach (ANDRÉ, 1983).
It was clear that stiffness, tiredness and sleepness affected the
subjects'relationship life, pulting them out of social life, family
relationship, companionship and dating. It has also been noticed
that most of the intervieived students besides the a disturbed
lifestyle began to respect and believe that the present sacrifices
are worthing.
Uniterms - nursing
student; nursing worker; double function.
|
|