Revista do Centro Universitário Barão de Mauá, v.1, n.2, jul/dez 2001  


OS CASOS AMOROSOS ENTRE FUNCIONÁRIOS NO AMBIENTE DE TRABALHO*

  Alessandra de Arantes Passetti¹
Janaína Gamboni²
Miriã Avelino Prado³
Nilza Teresa Rotter Pelá4


RESUMO: Através de entrevistas feitas com casais que trabalham num mesmo setor de uma empresa, procurou-se identificar os fatores que interferem quando há relacinamentos amorosos, bem como esses relacionamentos podem determinar alterações psicoemocionais nos profissionais. Os dados nos permite concluir que não há mudanças drásticas nas atividades de trabalho, somente ocorre uma grande dificuldade no relacionamento com colegas de trabalho, devido fofocas e críticas a respeito de seus relacionamentos.
Unitermos: Ambiente de Trabalho; Amor; Relações interprofissionais; Sentimento; Sexualidade.
 


          Segundo GIKOVAT (s/d) o ser humano "nunca" está plenamente satisfeito, ou seja, sempre falta algo para completar sua existência e consequentemente atingir sua felicidade. Poucas são as pessoas que conseguem chegar à plena realização do amor.
          As razões são muitas e em linhas gerais associados à interrupção do processo evolutivo em alguma etapa do desenvolvimento na infância.
          A evolução do ser humano levou-o a atingir um patamar onde é capaz de desenvolver a capacidade de devolução do sentimento e afeto recebido. A forma de amar animalesca deu lugar ao sentimento. Pessoas se enamoram, se apaixonam olhando nos olhos umas das outras. 
          Para o mesmo autor, o processo humano fundamental é a tentativa de harmonizar duas tendências opostas quais sejam a individuação e a reconstrução dial.
          Pode-se dizer então, que os homens chegam na sexualidade adulta com uma atitude racional a individualização. Ao contrário dos homens as mulheres, principalmente aquelas que superam perdas amorosas da infância, vêem com melhores olhos o envolvimento amoroso, são mais sonhadoras.
          A partir daí ocorrerá a vinculação da sexualidade ao processo de individualização, reforço importante da auto-estima através da conquista, tanto para as mulheres quanto para os homens.
          De acordo com Freud apud LEMGRUBER et al. (1987), o amor é constituído pela união de duas correntes libidinais que são conhecidas como sensual e terna. Por libido entende-se a energia quantitativa embora imensurável, das pulsões sexuais.
          Na literatura contemporânea, o amor é freqüentemente visto como uma fusão da satisfação genital com a ternura. Em tempos modernos a opinião predominante quanto à capacidade de amor maduro, é a de que o indivíduo tenha atingido um sentido de identidade, uma capacidade de aceitar a separação; uma aceitação parcial das limitações do outro.
         
Para Madel apud LEMGRUBER et al. (1987), o amante cria do amado uma imagem que nasce de seu mundo interior, ou seja, trata-se de uma projeção de uma parte de si mesmo, um processo recíproco por parte do amado tendo a participação de substâncias psíquicas que o amante atribui ao amado.
          Werman e Jacobs, apud LEMGRUBER et al. (1987), descrevem as características do apaixonamento como experiência intensa irracional e semelhante a um sonho; o ser amado é atraente, enfeitiçador, belo e senhor de si. O apaixonamento é precipitado por um traço do objeto, geralmente físico, experimentado como objeto parcial; o apaixonamento traz em si as sementes de sua ambivalência através de uma busca inconsciente e freqüentemente hostil de uma falha intolerável no ser amado; o apaixonamento é uma visão intoxicante na medida em que tenta realizar uma fantasia dolorosa por procurar evitar essa realização. Outros autores relatam que o fenômeno do apaixonar-se tem suas raízes nas fases prévias do desenvolvimento da criança quanto a formação de constância objetival.
          CASADEI (1998) relata os estudos de Silva que em sete anos de pesquisa sobre relacionamentos amorosos, identificou algumas pistas de como o brasileiro se relaciona amorosamente são elas: transformação de uma amizade ou relacionamento profissional em um caso amoroso; a ajuda de uma pessoa que é amigo em comum de dois desconhecidos e serve como avalista para ambos e isto será fundamental para o final de um feliz encontro.
          De acordo com o mesmo autor algumas alterações corporais e expressões não verbais são fáceis de serem detectadas e são utilizadas inconscientemente pelas pessoas quando estão atraídas por alguém, como por exemplo: na mesa do bar, a mania de conversar com o parceiro tocando-o casualmente nos braços ou joelhos pode ser sinal de atração, tanto quanto sorrir e olhar constantemente para a pessoa; a fala também fica animada, as pupilas se dilatam e quem está apaixonado mostra-se prestativo e interessado em continuar a conversa.
          Foi observado por CHARDIN (1995), que tanto homens como mulheres se diferem nas estratégias sexuais, mas que o jogo da sedução que dá a essência para o namoro, o amor e o casamento, se inicia de forma sutil, mas com padrão universal para todos.
          O olhar do desejo pode ser um dos instrumentos mais importante no enamoramento. Ele parece despertar efeito imediato e levar estímulo de aceitação ou rejeição ao cérebro. Dificilmente é possível ignorar o olhar fixo de uma pessoa em nós.
          O reconhecimento inicia-se quando os olhares se encontram; nesse instante um dos dois aceita o jogo e corresponde com um sorriso, mudança de posição, mexe nos cabelos e o casal começa a conversar.
          A conversa da sedução é um dos estágios considerados mais difíceis de todos; ocorre uma conversa fútil e sem sentido, caracterizada pela mudança de voz, que fica mais alta, suave e musical demonstrando carinho e tranqüilidade.
          O contato físico começa com atitudes de intenção; um dos enamorados aproxima-se, podendo colocar o braço ou a mão perto do outro sobre a mesa, também ocorre a aproximação dos pés, um dos dois acaricia o seu próprio braço ou cabelo, como se estivesse acariciando o do outro.
          No ritual do namoro a sincronia dos corpos é o componente final, a medida que os enamorados ficam mais à vontade, movimentam-se normalmente até seus corpos ficarem alinhados e frente a frente. O movimento normalmente começa antes da conversa ou após, mas com o tempo ambos se movimentam juntos no cruzar de pernas, inclinação do corpo, no alisar dos cabelos.
          O olhar, o sorriso, o toque carinhoso, a universalidade da sincronia corporal, parecem ser em toda parte, componentes do jogo da sedução.
          Para MALUF (1997), sentir interesse por alguém no ambiente de trabalho é algo normal e pode acontecer a qualquer um.
          No ambiente de trabalho encontram-se pessoas com os mesmos interesses e preocupações parecidas, dentre o clima de cumplicidade de quem vive no mesmo ambiente. Com toda esta situação, as pessoas terão mais chances de observar e avaliar os comportamentos e atitudes do outro, vivencia-se como uma pessoa atua durante os bons e maus momentos, se é responsável, sincero e divertido. Em um encontro formal nada disso acontece.
          Mesmo envoltos em um clima de bons sentimentos, compreensão, respeito, poderá ocorrer a competição entre os enamorados o que impulsionará a carreira dos dois.
          O relacionamento amoroso nas empresas são descritos, por PASTORI (1998), em várias fases como relatado a seguir.

De olho na mesa do lado
          O período do flerte ou do namoro costuma ser o mais excitante, nada é falado, apenas sugerido, as atenções estão voltadas para um único foco, e isto é um motivo a mais para aumentar a criatividade nas tarefas. As desculpas para estarem juntos são freqüentes e a conversa é sempre um assunto que não diga respeito aos dois.
          É nesse clima escondido ou proibido que faz o enamoramento ser sedutor no início.

Segredo de estado
          A maioria dos casos no trabalho começa "meio clandestino". Para começar, nenhum dos dois tem de entrada a certeza de até onde a história pode chegar e também não são claros os riscos que essa situação pode trazer. Pode acontecer ainda, de um dos dois não querer "abrir a situação" para evitar a exposição da vida íntima aos colegas, pessoas com quem não busca mais do que uma ligação profissional.

A posição da empresa
          Cada empresa dá um peso diferente ao envolvimento entre funcionários, não existe uma regra. Em geral, as empresas não têm nada contra o namoro entre funcionários de seções diferentes, só interferem quando o rendimento é afetado. Mais isso ocorreria de qualquer forma se a performance "caísse" por algum outro motivo.
          Segundo PASTORI (1998), as paixões de funcionários dentro do trabalho sempre existiram, mas a maioria das empresas eram contra este tipo de relação. A mudança começou entre as décadas de oitenta e noventa quando as relações hierárquicas nas empresas tornaram-se mais tênues, quando a figura tão temida do chefe desapareceu e surgiu o líder. Foi então que se processou a valorização do trabalho em equipe, o resultados. Desde então as empresas planejam, executam e incentivam programas de convivência, de integração com seus funcionários, com a família e com o local de trabalho.
          Para a mesma autora, o local de trabalho torna-se o lugar mais seguro para conhecer pessoas, sendo que um quarto dos funcionários já tiveram casos com colegas de trabalho, às vezes namoros, flertes, casamentos, até assédio sexual. São os seguintes os caminhos que levam ao romance na empresa: o casamento adiado, a presença feminina (participação maior nas empresas),a proximidade física (valorização do trabalho em equipe), o aumento da jornada de trabalho (maior convívio com os colegas de trabalho).
          Os relacionamentos amorosos entre colegas de trabalho obedecem a um ritual com etapas bastante definidas quais sejam: fantasia, a "lua de mel", a estabilidade e a consolidação
          Na fase de fantasia o objeto de desejo é alvo de minuciosa atenção - o perfume, o modo de andar, falar ou atender o telefone. Os apaixonados ainda que platônicos aparecem no escritório mais bem vestidos e exibem-se.
          Quando os dois percebem atração mútua entram na fase de "lua de mel" então, conversam assuntos pessoais e têm o primeiro, o segundo convite para sair e quando percebem já estão namorando. Como um tem olhos para o outro, podem distrair-se no trabalho.
          Após esta fase surge o período de segurança no relacionamento e esse faz com que ocorra o retorno à rotina normal do trabalho. Com medo de serem acusados por improdutividade por causa do romance, esforçam-se mais.
          No estágio de consolidação ninguém tem de provar mais nada para ninguém e a produtividade volta aos patamares originais. Quando o romance ganha ares eternos, o casal já pensa em morar junto ou casar
          Após a descrição destas fase PASTORI ( 1998), lembra que é possível namorar no ambiente de trabalho sem perder a compostura. Propõe alguns procedimentos, relatados a seguir, que visam preservar os enamorados de comentários maldosos:
          - por mais que estejam apaixonados, os enamorados devem controlar-se, pois na empresa não é lugar para juras de amor que poderá atrapalhar o trabalho, considerando que o chefe poderá ficar desconfiado da capacidade de concentração;
          - mesmo no pátio ou corredor da empresa evita-se até os mais singelos beijos, pois poderão ser flagrados e serão objeto de comentário na empresa;
          - não comentar assuntos de noites passadas por e-mail, pois alguém poderá violar o correio eletrônico;
          - fazer de tudo para serem vistos como profissionais independentes com opinião própria, pois apelidos carinhosos como "docinho", "tigrão" só em casa;
          - querendo ficar perto da pessoa amada dentro da empresa só na presença do grupo. O trabalho em equipe é mais valorizado;
          - se o romance acontece é de bom tom avisar o chefe de imediato, pois assim evitará falatórios pelos corredores;
          - não esconder o romance, se o "fofoqueiro" quiser saber diga "sim" e corte a conversa;
          - os ingredientes do trabalho são a competência e o senso de profissionalismo e isso não combina com o ciúme;
          - nunca comentar com ninguém da empresa confidências ou intimidades do companheiro, pois os amigos de um são também amigos do outro; 
          - ocorrendo apaixonar-se pelo chefe o funcionário não deve relaxar no serviço, ou se o chefe se apaixonar pela funcionária não deve concordar com o relaxamento no serviço, pois sua liderança ficará defasada e haverá problemas. 
         Motivadas pela temática e interessados em aprofundar conhecimentos sobre um 
assunto tão pouco explorado o presente trabalho tem os seguintes objetivos: 
          - Identificar como se dá o relacionamento entre colegas de uma mesma empresa que se relacionam afetivamente.
          - Identificar as repercussões deste relacionamento afetivo-amoroso no processo de trabalho entre trabalhadores de uma mesma empresa durante o expediente de trabalho.
          - Descrever como os trabalhadores dentro de uma mesma empresa se vêem frente a experiência de vivenciar um relacionamento afetivo com um colega de trabalho.           


Metodologia

          O presente estudo foi desenvolvido em três hospitais, uma escola e um escritório .
          A população foi composta por casais que trabalhavam em uma mesma empresa.
          Excluiu-se da amostra casais que não vivenciassem a infidelidade conjugal e casais homossexuais. Assim a amostra foi constituída de trabalhadores que atuavam na mesma empresa e que predispuseram a participar do desenvolvimento desta investigação, ficando composta por 09 casais .
          Esta investigação foi operacionalizada a partir de entrevistas semi-diretivas gravadas a buscou de dados relevantes à compreensão do fenômeno estudado e utilizou o roteiro de entrevista apresentado no AnexoA.
          Os prováveis entrevistados assim como suas chefias imediatas foram comunicados verbalmente antes da entrevista e aquiesceram com a realização da mesma
          A análise de prosa ( ANDRÉ,1983) foi utilizada como, alternativa de análise de dados das falas dos sujeitos obtidos da transcrição do conteúdo das fitas gravadas e das impressões do investigado, frente ao comportamento verbal dos entrevistados. como: cortar as frases pela metade, medo de falar algo demais.


Resultados

          Foram entrevistados 09 casais com relacionamento afetivo-amoroso dentro de uma mesma empresa. Os casais foram caracterizados quanto a idade, escolaridade, cargo ou função, o tempo em que estão juntos e o tipo de relacionamento.


CASO 1


Idade
Escolaridade
Cargo ou função
A quanto tempo juntos
Tipo de relacionamento 
MASC.
29 anos
3º grau incompleto
Aux. Enfermagem
1 ano e 6 meses
Namorados
FEM.
27 anos
2º grau completo
Aux. Enfermagem 
1 ano e 6 meses
Namorados


CASO 2 


Idade
Escolaridade
Cargo ou função
A quanto tempo
Tipo de relacionamento
MASC.
34 anos
2º grau completo
Ofic. Administrativo
+- 2 anos
Namorados
FEM.
38 anos
1º grau completo
Aux. Enfermagem
1 ano e 8 meses
Namorados


CASO 3 


Idade
Escolaridade
Cargo ou função
A quanto tempo
Tipo de relacionamento
MASC.
25 anos
2º grau incompleto
Aux. Enfermagem
+- 2 anos
Namorados
FEM.
22 anos
2º grau incompleto
Aux. Enfermagem
2 anos
Namorados


CASO 4 


Idade
Escolaridade
Cargo ou função
A quanto tempo
Tipo de relacionamento
MASC.
28 anos
2º grau completo 
Prof. Música 
4 anos
Casados
FEM.
21 anos
2º grau completo 
Prof. Música 
4 anos
Casados


CASO 5 


Idade
Escolaridade
Cargo ou função
A quanto tempo
Tipo de relacionamento
MASC.
24 anos
2º grau completo 
Téc. Gesso
10 meses
Ficantes
FEM.
23 anos
2º grau completo 
Téc. Enfermagem 
10 meses
Ficantes


CASO 6 


Idade
Escolaridade
Cargo ou função
A quanto tempo
Tipo de relacionamento
MASC.
30 anos
1º grau completo
Téc. Raio - x e Instrumentador
3 anos e 6 meses
Casados
FEM.
26 anos
2º grau completo
Atendente de Enfermagem
3 anos e 6 meses
Casados


CASO 7 


Idade
Escolaridade
Cargo ou função
A quanto tempo
Tipo de relacionamento
MASC.
23 anos 
2º grau incompleto
Atendente de Enfermagem
4 meses
Namorados
FEM.
28 anos
2º grau completo
Atendente de Enfermagem
4 meses
Namorados


CASO 8 


Idade
Escolaridade
Cargo ou função
A quanto tempo
Tipo de relacionamento
MASC.
32 anos
3º grau completo
Médico
1 ano e 3 meses
Namorados
FEM.
21 anos
3º grau completo
Recepcionista
1 ano e 3 meses
Namorados


CASO 9 


Idade
Escolaridade
Cargo ou função
A quanto tempo
Tipo de relacionamento
MASC.
28 anos
3º grau completo
Médico
4 anos e 6 meses
Casados
FEM.
27 anos
3º grau completo
Médica
4 anos e 6 meses
Casados


          Uma vez transcrito e analisado o conteúdo da fala dos casais emergiram seis Temas e dezenove Tópicos que estão apresentados no Quadro1 

Quadro1 - Temas e Tópicos gerados das falas dos casais

TEMA

TÓPICOS

Diferentes modalidades de paquera

- Paquera bilateral no local de trabalho
- Paquera no local de trabalho de um
- Carona

Atitudes dos colegas

- Fofocas
- Apoio
- Críticas

- Indiferença

Reação da chefia

- Observação
- Indiferença
- Repreensão

Reações importantes a situações vividas

- Críticas e fofocas
- Indiferença
- Ciúme

Influência do namoro no trabalho

- Aumento da produtividade
- Indiferente
- Negativa
- Positiva

Tratamento no ambiente de trabalho

- Profissional
- Amoroso

          A seguir apresenta-se cada Tema com seus Tópicos apontando o número de casais em que o tópico ocorreu. Cada tópico é seguido de recorte das falas de casais, entre aspas para manter fidedignidade das expressões verbais dos entrevistados.

          Tema - Diferentes modalidades de paquera

                    Paquera bilateral no local de trabalho ( 7 casais)
          "Quando eu entrei no hospital ela foi a primeira pessoa a quem me apresentaram, logo ficamos amigos e começamos a cruzar os olhares."
          "Tudo começou como uma troca de olhares, depois duas trocas de olhares, ai um olhar ficou no outro durante muito tempo."
          "Eu estava saindo de um relacionamento de oito anos, estava noivo, ela também estava largando do namorado, então os olhares se cruzaram e nos apaixonamos."

                    Paquera no local de trabalho de um ( 1 casal)
          "Nos conhecemos em um barzinho, quando eu trabalhava tocando em finais de semana, no momento trabalho com ela em uma escola de música, eu dou aula de violão e ela de teclado."
          "Conheci ele num barzinho cujo qual ele tocava, na época parecia 'rolinho' passageiro", mas tudo ficou muito mais sério do que pensávamos."

                    Carona ( 1 casal)
          "Tudo começou quando fizemos o curso de Auxiliar de Enfermagem, nos tornamos grandes amigos, saiamos juntos e sempre tinha uma paquera, um olho no olho, mas tudo concretizou quando fomos trabalhar junto no mesmo hospital. Eu comecei a trabalhar, daí dez dias ele começou e sempre me dava carona na hora de ir embora, quando percebemos já estávamos namorando."

          Tema - Atitude dos colegas

          A repercussão junto aos colegas variou conforme as amizades, uns fizeram fofocas, outros apoiaram, outros criticaram e a minoria, se opuseram com indiferença:

                    Fofocas (2 casais)
          "Alguns colegas diziam que eu estava louca, pois ele não prestava, até tentamos esconder o namoro, mas acabou sendo pior, pois os colegas vinham a me dizer que ele estava saindo ou dando carona para alguém, só para observarem as minhas atitudes. Observei que se escondido ou do conhecimento de todos, falariam do mesmo jeito, então assumimos o namoro."
          ".Perdi até a amizade de uma pessoa por ter inventado fofoca de mais ao nosso respeito."


                    Apoio ( 2 casais) 
          "De um lado quem me conhecia achou muito legal, pois eu era muito sozinha, e as pessoas viviam dizendo para eu arrumar um namorado e as pessoas que conheciam ele falou: que legal, vocês formam um casal ideal, portanto, nunca tivemos problemas com amigos."
          "Quando nossos colegas descobriram deram o maior apoio, pois achavam que tínhamos tudo haver um com o outro."

                    Críticas (3 casais)
          "Tentamos esconder o namoro, mais já havia muitos comentários pelo fato de estarmos juntos em horário de café, janta e irmos embora juntos, então acabamos assumindo o namoro. Todos fizeram os comentários mais maldosos que puderam."
          "As pessoas ficaram espantadas quando souberam, meus amigos não acreditaram que eu estava largando da minha noiva de oito anos, houve mais críticas do que elogios."

                    Indiferença (1 casal)
          "A repercussão não foi tão grande, no meu modo de ver, pois os encontros eram escondidos, mas aqueles colegas que ficaram sabendo não ficaram surpresos."

          Tema - Reação da chefia

          Pode-se detectar que hoje em dia as chefias se tornaram indiferentes frente ao relacionamento dos seus funcionários, isto é quando estes não prejudicam as suas tarefas.

                    Observação (2 casais)
          "A chefia só observou nossas atitudes mas nunca interferiu em nada."
          "Notei que começaram a nos observar, principalmente a mim, chamavam minha atenção sem motivo algum."

                    Indiferença (6 casais)
          "Não comentaram nada, no entanto quando descobriram já fazia tempo que estávamos namorando, ninguém chegou para mim e disse se era não ou sim, não houve nenhum comentário da chefia direta ou indireta."
          "Nenhuma eu era o chefe."

                    Repreensão (2 casais)
          "Acabaram nos chamando a atenção porque houve comentários de colegas que nós namorávamos em horário de trabalho e ameaçaram a nos mandar embora se o namoro não terminasse."
          "A chefia tentava ignorar o nosso relacionamento e ao mesmo tempo distanciávamos colocando-nos em períodos diferentes de aula."

          Tema - Reações importantes a situações vividas

          Ocorreram muitas reações frente ao que vivem ou viveram os casais que foram entrevistados que a vezes acabaram prejudicando o início do seu namoro devido muitas críticas, fofocas, falatórios maldosos e até mesmo por ciúmes de um dos dois; somente alguns não sofreram interferência no seu relacionamento.

                    Críticas e fofocas (4 casais)
          "Falatórios e fofocas que inventaram sobre nós."
          "Acho que o fato das pessoas falarem e inventarem algo que não lhe dizem respeito"

                    Indiferença ( 4 casais)
          "Diretamente não houve nada que nos incomodou."
          "A pouca divulgação do nosso relacionamento não me trouxe reações apenas troca de gentileza entre ambos."

                    Ciúme (1 casal)
          "O fato dela ser muito ciumenta prejudicou nas minhas amizades."


          Tema - Influência do namoro no trabalho

          Entre os entrevistados foi observado que para alguns o namoro não apresentou influências no seu comportamento frente ao trabalho; mas também foi detectado colocações positivas e negativas dos próprios casais frente a repercussão do namoro nas atividades de trabalho.

                    Aumento da produtividade (1 casal)
          "No início tentamos fazer mais do que nós éramos capazes, para ninguém comentar que nós só namorávamos e não fazíamos o serviço."

                    Indiferente (4 casais)
          "Creio que não influenciou em nada, pois sempre desempenhei minhas atividades profissionais na hora certa e corretamente."
          "O namoro não influenciou em nada no meu trabalho, continua a mesma coisa."

                    Negativa (1 casal)
          "Influenciou muito negativamente, ela sempre acha que desprezo suas opiniões, tem ciúmes das outras professoras e fica na minha cola."

                    Positiva ( 3 casais)
          "O namoro influenciou muito positivamente, pois a partir do momento que você sente alguma coisa por alguém, você passa a executar suas atividades com mais vontade, você começa a ter mais disposição inclusive na hora que você está indo para o trabalho."
          "Influenciou em algumas partes porque nos comunicamos mais e comentamos mais sobre assuntos profissionais."

          Tema - Tratamento no ambiente de trabalho

          Foi observado maturidade e profissionalismo nos casais estudados, somente um casal declarou que seu tratamento é amoroso.

                    Profissional (8 casais)
          "Nos tratamos normais, como dois profissionais."
          "No ambiente de trabalho temos que separar o lado afetivo que existe, mas não deixamos de ter um contato carinhoso."
          "É lógico que o meu modo de trata-la é diferente dos demais, mas nunca lhe chamo de meu amor na frente dos demais colegas, quando preciso lhe dizer algo no horário de trabalho, falo como se estivesse falando com outro colega."

                     Amoroso (1 casal)
          "Ela me chama de amor, pelo nome e as vezes de "benzinho"."

          Conclusão:
          A respeito das dificuldades que envolvem a abordagem do tema, os resultados obtidos, através dos dados coletados, indicam que:
          - houve dificuldade de encontrar casais que quisessem participar e que tivessem o seu namoro assumido; por medo de perderem seus empregos nos dificultando a coleta de dados;
          - o namoro inicia-se de várias formas, muitas vezes inesperada até para ambos, podendo ocorrer através de uma paquera bilateral no local de trabalho, caronas, paquera no local de trabalho de cada um;
          - o olhar apresenta-se no início de todos os casos, e devido o fato do local de trabalho aproximar mais as pessoas, ocorre com mais freqüência a paquera bilateral no mesmo;
          - muitos casais sofrem com a manifestação dos colegas quando ficam sabendo que estão namorando; inventam fofocas, fazem críticas, outros até apoiam e ainda há os que se comportam com indiferença;
          - as fofocas e críticas acabam gerando um ambiente de trabalho desagradável, levando muitos até perderem amizades;
          - hoje em dia a maioria das chefias se tornaram indiferentes frente ao relacionamento dos seus funcionários; isto quando estes não prejudicam o desenvolvimento de suas tarefas;
          - ainda há chefes que observam o relacionamento podendo interferir ou não, de alguma forma; e os repreendedores, que mesmo não sabendo o que está ocorrendo, repreendem os casais por qualquer motivo;
          - ocorrem reações importantes com relação às situações que os casais vivem ou viveram, quanto as críticas, fofocas, ciúmes de um dos dois, tais reações acabam prejudicando o início de alguns namoros e acabam afetando as amizades;
          - há casais que relataram não terem sofrido nenhuma interferência no seu namoro, não tendo ocorrido reações que os poderiam afetar;
          - entre a maior parte dos casais entrevistados foi observado que o namoro não apresenta influência no seu comportamento frente ao trabalho, mantendo suas atividades sem alterações; 
          - ocorrem atitudes positivas e negativas no trabalho dos casais que estão namorando; 
          - um dos casais relatou o aumento de produtividade para não ocorrer comentários maldosos dos colegas;
          - o tratamento entre os casais no ambiente de trabalho é profissional, tendo somente um casal demonstrado tratamento amoroso mesmo no trabalho.
          Foi percebido através dos dados analisados que as pessoas que se relacionam com companheiros de trabalho sofrem muitas alterações emocionais devido ao fato de terem sempre alguém interferindo no seu namoro, por estar escutando críticas, fofocas;também por um dos dois demonstrar ciúmes e tudo isso pode afetar vínculos de amizades e até mesmo por algumas vezes trabalhar mais do que dão conta para a chefia ou os colegas não os repreender.

  


ABSTRACT: Through interviews with couples who work in the same sector of a company, the purpose of this study was to identify the factors that influence in love relationships, as well as these relationships may determine psychoemotional alterations in these professionals. Data enabled authors to concluded that there are no drastic changes in work activities. However, the relationship with the colleagues at work is impaired due to talks and critics regarding the relationships.
Key words: work environment; love; interprofessional relationships, feeling, sexuality 


ANEXO A

Roteiro para Entrevista:

1 - Identificação do casal 

- Idade:
- Escolaridade:
- Cargo ou função:
- A quanto tempo juntos:
MASC
________
________
________
________
FEM.
________
________
________
________

2 - Vocês são namorados, casados ou companheiros que trabalham no mesmo local? Falem um pouco como isso começou.
3 - Vocês se lembram como foi a repercussão de seus encontros quando os colegas ficaram sabendo? Falem um pouco sobre isto.
4 - Como foi a reação da chefia?
5 - Falem de outras reações que vocês consideram importantes com relação a situações que vocês vivem ou viveram.
6 - Como o namoro influenciou em suas atividades profissionais? Falem um pouco sobre isso.
7 - Como vocês se tratam no ambiente de trabalho? Comente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRÉ, M.E.D.A.de. Texto, contexto e significado: algumas questões na análise de dados qualitativos.Cad. Pesq., v.45, p.66-71,1983.
CASADEI, J.O. Namoro ou amizade? Ensino superior, v. 1, n. 1, p. 6, 1998.
CHARDIN, T. de. O namoro - Os jogos de sedução. In: FISHER, H.E. (ed.). Anatomia do amor: a história natural da monogamia, do adultério e do divórcio. Rio de Janeiro Eureka,, 1995. cap.1, p. 17-38.
GIKOVAT, F. O instinto do amor. 5 ed. s.n.t., cap. 10, p. 103-115: O amor na vida adulta. 
LEMGRUBER, C.M.; AGUIAR, M.M.M. Um estudo preliminar do amor: uma visão psicanalítica. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 36, n. 2, p. 67-134, 1987.
MALUF, K. Amor no escritório. ELLE, v. 10, n. 11, p. 92-94, 1997.
PASTORI, K. Na cama com o colega. VEJA, v. 31, n. 20, p. 100-106, 1998.


* Parte da monografia apresentada ao curso de Especialização Enfermagem do Trabalho do Centro Universitário Barão de Mauá, 1998
¹ Enfermeira graduada no Centro Universitário Barão de Mauá, 1997. Especialista em Enfermagem do Trabalho no Centro Universitário Barão de Mauá, 1998. Atuando como Enfermeira no CTI Neonatal do HC de Ribeirão Preto.
² Enfermeira graduada no Centro Universitário Barão de Mauá, 1997. Especialista em Enfermagem do Trabalho no Centro Universitário Barão de Mauá, 1998. Atuando como Enfermeira do Trabalho na Andrade Açúcar e Álcool e coordenadora do Pronto Atendimento da Unimed de Pitangueiras-SP. 
³ Enfermeira graduada no Centro Universitário Barão de Mauá, 1997. Especialista em Enfermagem do Trabalho no Centro Universitário Barão de Mauá, 1998. Atuando como Enfermeira no Centro Médico Social Comunitário de Vila Lobato da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP e supervisora do Serviço Terceirizado de Enfermagem do Sistema 192 da Prefeitura de Ribeirão Preto. 
4 Prof. Titular Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/ USP (aposentada) e orientadora desse trabalho