Publicação Bimestral do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Barão de Mauá

PÁGINA 2

Editorial

Compromisso com a qualidade do Ensino Superior

Destaque

TV digital: o que muda em relação à qualidade?

Expediente

COTIDIANO

Projeto social dedica-se aos
cuidados com animais domésticos

Universitários participam de Congresso em
São Bernardo do Campo

Grupo Folclórico Barão de Mauá
faz renascer a cultura regional

Um novo significado para Voluntariado

ESPORTE

Esportes adaptados às deficiências

MEIO AMBIENTE

Os vilões do clima

O Avanço do Biodiesel no Brasil

A Terra só conseguirá preservar a água com consciência social e uso racional

Comitês Hidrográficos lutam pela preservação da água

EDUCAÇÃO E CIÊNCIA

Informação aumenta,
mas ao mesmo tempo confunde

Comitê de Ética em Pesquisa

CIDADANIA

Diferentes sim, incapazes não

VI Gincana Verde e Branco

ATUALIDADE

À espera de um código de ética

O processo de repasse de verbas a uma entidade social

Perigo dentro de casa

5º Festival da Comunicação
da Barão de Mauá

MEIO AMBIENTE

Os vilões do clima

Conheça o efeito estufa, seus agentes causadores e como, em menos de 20 anos, ele pode mudar o destino da Terra

Trabalhador no corte de cana: o mais castigado pelos efeitos nocivos do carvão
Foto: Cleberson França

Grace Hermini
Fernanda Saule
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As estações do ano não se distinguem mais tão facilmente. Alguém se arriscaria em apontar quais foram as grandes diferenças entre o clima da primavera e do verão do ano passado? Ao invés de chuva branda e regular, pancadas fortes e rápidas suficientes para alagar bairros inteiros em poucos minutos. Três meses habituais de inverno, substituídos por 15 dias de um frio razoável. Estiagens em períodos de cheias. Muito calor em regiões caracteristicamente frias. O que está acontecendo com o planeta? Para responder a estas e outras questões, apresenta-se ao leitor, o efeito estufa.
Há cerca de 20 anos, quando cientistas começaram uma mobilização com o intuito de alertar a população mundial para os riscos do aquecimento global, pouco crédito receberam. Atualmente, a natureza dá mostras de sua ira, como foi o caso do tsunami na Ásia e do furacão Katrina nos Estados Unidos.
O tão polêmico efeito estufa já é uma realidade. A Terra possui uma barreira natural de gases que a envolve, protegendo-a e auxiliando na manutenção de sua temperatura. Acontece que hoje, sete bilhões de toneladas de gás carbônico são lançados por ano na atmosfera, de acordo com estimativas do Intergovernmental Panel On Climate Change (IPCC). O acúmulo de gases forma uma camada tão densa que impede a liberação de parte do calor recebido da energia solar, o qual deveria retornar ao espaço. Assim sendo, o calor fica retido na atmosfera, aumentando a temperatura do planeta gradativamente. Esse é o princípio básico do efeito estufa.
Os gases, principais responsáveis pelo aquecimento global, como o dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso, sem exceção, em sua grande maioria, são expelidos na atmosfera a partir de atividades humanas. Segundo dados da organização não-governamental Greenpeace, os maiores poluidores são, em ordem crescente, a produção de petróleo, os postos de gasolina, a queima de gasolina e diesel, o esterco, a queima de material vegetal, a queima de carvão, o esgoto, os campos de arroz inundados, a queima de gás natural e o grande vilão do aquecimento global: a criação de ruminantes. É isso mesmo. Segundo a Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - os ruminantes, principalmente os bovinos, são os responsáveis pela maior liberação de metano, algo em torno de 80 milhões de toneladas anuais.
Os efeitos do aquecimento global começam a ser identificados agora. Um dos casos mais notórios é o aumento da temperatura do planeta. Segundo dados da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (CETESB), ela subirá entre 1,5º e 5,8º C. Ficou comprovado ainda que os dez anos mais quentes da história, analisando-se um intervalo de 130 anos, foram todos a partir do início da década de 80 e que, até 2100, os níveis de gases estufa triplicarão, pois os mesmos podem permanecer ativos na atmosfera durante décadas.
Ainda de acordo com a CETESB, registrando uma temperatura atual que já é a mais alta em 400 anos, com a maioria das geleiras em processo de derretimento, com o nível do mar subindo duas vezes mais rápido que no século XX, o cenário do planeta em pouco tempo será assim: uma freqüência ainda maior de furacões, cidades costeiras e ilhas engolidas pelo oceano (já que o mar poderá subir até 25 metros), diminuição da água potável disponível (em função da mistura da água do mar com a água doce) e redução nas safras agrícolas (em virtude de grandes enchentes ou de intensos períodos de seca).
A comunidade científica tem feito um grande esforço para barrar o avanço do efeito estufa, porém ainda não conseguiram colocar em prática o Protocolo de Kyoto, que depende das assinaturas de países que, juntos, sejam responsáveis pela emissão de 55% dos gases nocivos. Os Estados Unidos figuram entre os quatro maiores emissores de gases. Logo, não assinaram o protocolo.
Ao menos uma vitória os cientistas e ativistas podem comemorar. Desde a assinatura do protocolo de Montreal, em 1987, que baniu gradualmente o uso dos CFCs (produto químico) pela indústria; em 2003, foi possível medir, pela primeira vez, o início da recuperação da camada de ozônio, que protege a Terra dos raios solares capazes de desenvolver câncer.
Trazendo o problema do aquecimento global um pouco mais próximo da realidade regional, é importante destacar o quanto as queimadas da palha de cana-de-açúcar trazem prejuízos para a sociedade e para a natureza. Conforme informações da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (ÚNICA), amparados por uma lei, aprovada pelo governo estadual, as usinas poderão continuar com a prática até o ano de 2021. As conseqüências têm sido desastrosas, principalmente na região ribeirão-pretana, que conta com aproximadamente 30 empresas (entre usinas e destilarias) que se beneficiam das queimadas.
A cidade de Sertãozinho, a cerca de 22 quilômetros de Ribeirão Preto, sofre de maneira considerável os impactos socioambientais causados pela queima da cana. Algumas donas de casa reclamam da constante alergia dos filhos, como é caso de Solange Maria Torres. “Durante a safra cai carvão o tempo todo. Aqui em casa estamos sempre com tosse”. De acordo com o médico Dr. Marcos Rogério Fabris Zamoner, as queimadas aumentam os casos de asma, bronquite e rinite na população, mas diz que ainda não há estudos que relacionem algum tipo de câncer a partir do contato físico com o carvão.
Outra reclamação dos moradores é quanto à quantidade de água utilizada durante este período. Segundo a moradora Maria de Moura de Almeida, é necessário lavar o quintal todos os dias. “Uso muito mais água nessa época e o gasto em casa aumenta”, afirma.
Os humanos não são os únicos que sofrem os efeitos das queimadas. A fauna acaba muito castigada também. Segundo o sargento Joaquim Francisco Sorreição, do Corpo de Bombeiros local, por causa do incêndio nos canaviais, muitos animais fogem assustados para a zona urbana e invadem residências. “Com freqüência somos acionados para resgatar animais dentro da cidade. Já resgatamos cobras, gambás, micos e teiús”. O sargento disse ainda que certa vez participou de uma ação para apagar o fogo de uma propriedade, que foi invadida por um incêndio canavieiro. “Em meio ao fogo encontramos uma preá com muitas queimaduras. Nós a levamos ao veterinário, mas ela não sobreviveu”. Os animais saudáveis que são resgatados pelos bombeiros são devolvidos ao habitat natural e aqueles muito feridos, sem chance de voltar à natureza, são tratados e seguem para o bosque de Ribeirão Preto.
De acordo com a ONG Greenpeace, a queimada, apesar de ser a responsável por cerca de 25% da poluição da atmosfera terrestre, agride até mesmo o solo. O técnico em agropecuária, Alécio José, afirma que a terra fica pobre em micronutrientes e torna-se estéril.
Os vilões do clima são muitos. Alguns deles são velhos conhecidos e os problemas que eles podem causar são os mais variados possíveis. Se a redução dos gases estufa não acontecer o quanto antes, dentro de pouco tempo os homens não enxergarão um horizonte azul, mas sim um horizonte cinza, da mesma cor das agressões feitas à natureza.