| Grace
Hermini
Fernanda Saule
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As estações
do ano não se distinguem mais tão facilmente.
Alguém se arriscaria em apontar quais foram as
grandes diferenças entre o clima da primavera
e do verão do ano passado? Ao invés de
chuva branda e regular, pancadas fortes e rápidas
suficientes para alagar bairros inteiros em poucos minutos.
Três meses habituais de inverno, substituídos
por 15 dias de um frio razoável. Estiagens em
períodos de cheias. Muito calor em regiões
caracteristicamente frias. O que está acontecendo
com o planeta? Para responder a estas e outras questões,
apresenta-se ao leitor, o efeito estufa.
Há cerca de 20 anos, quando cientistas começaram
uma mobilização com o intuito de alertar
a população mundial para os riscos do
aquecimento global, pouco crédito receberam.
Atualmente, a natureza dá mostras de sua ira,
como foi o caso do tsunami na Ásia e do furacão
Katrina nos Estados Unidos.
O tão polêmico efeito estufa já
é uma realidade. A Terra possui uma barreira
natural de gases que a envolve, protegendo-a e auxiliando
na manutenção de sua temperatura. Acontece
que hoje, sete bilhões de toneladas de gás
carbônico são lançados por ano na
atmosfera, de acordo com estimativas do Intergovernmental
Panel On Climate Change (IPCC). O acúmulo de
gases forma uma camada tão densa que impede a
liberação de parte do calor recebido da
energia solar, o qual deveria retornar ao espaço.
Assim sendo, o calor fica retido na atmosfera, aumentando
a temperatura do planeta gradativamente. Esse é
o princípio básico do efeito estufa.
Os gases, principais responsáveis pelo aquecimento
global, como o dióxido de carbono, o metano e
o óxido nitroso, sem exceção, em
sua grande maioria, são expelidos na atmosfera
a partir de atividades humanas. Segundo dados da organização
não-governamental Greenpeace, os maiores poluidores
são, em ordem crescente, a produção
de petróleo, os postos de gasolina, a queima
de gasolina e diesel, o esterco, a queima de material
vegetal, a queima de carvão, o esgoto, os campos
de arroz inundados, a queima de gás natural e
o grande vilão do aquecimento global: a criação
de ruminantes. É isso mesmo. Segundo a Embrapa
- Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
- os ruminantes, principalmente os bovinos, são
os responsáveis pela maior liberação
de metano, algo em torno de 80 milhões de toneladas
anuais.
Os efeitos do aquecimento global começam a ser
identificados agora. Um dos casos mais notórios
é o aumento da temperatura do planeta. Segundo
dados da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental
(CETESB), ela subirá entre 1,5º e 5,8º
C. Ficou comprovado ainda que os dez anos mais quentes
da história, analisando-se um intervalo de 130
anos, foram todos a partir do início da década
de 80 e que, até 2100, os níveis de gases
estufa triplicarão, pois os mesmos podem permanecer
ativos na atmosfera durante décadas.
Ainda de acordo com a CETESB, registrando uma temperatura
atual que já é a mais alta em 400 anos,
com a maioria das geleiras em processo de derretimento,
com o nível do mar subindo duas vezes mais rápido
que no século XX, o cenário do planeta
em pouco tempo será assim: uma freqüência
ainda maior de furacões, cidades costeiras e
ilhas engolidas pelo oceano (já que o mar poderá
subir até 25 metros), diminuição
da água potável disponível (em
função da mistura da água do mar
com a água doce) e redução nas
safras agrícolas (em virtude de grandes enchentes
ou de intensos períodos de seca).
A comunidade científica tem feito um grande esforço
para barrar o avanço do efeito estufa, porém
ainda não conseguiram colocar em prática
o Protocolo de Kyoto, que depende das assinaturas de
países que, juntos, sejam responsáveis
pela emissão de 55% dos gases nocivos. Os Estados
Unidos figuram entre os quatro maiores emissores de
gases. Logo, não assinaram o protocolo.
Ao menos uma vitória os cientistas e ativistas
podem comemorar. Desde a assinatura do protocolo de
Montreal, em 1987, que baniu gradualmente o uso dos
CFCs (produto químico) pela indústria;
em 2003, foi possível medir, pela primeira vez,
o início da recuperação da camada
de ozônio, que protege a Terra dos raios solares
capazes de desenvolver câncer.
Trazendo o problema do aquecimento global um pouco mais
próximo da realidade regional, é importante
destacar o quanto as queimadas da palha de cana-de-açúcar
trazem prejuízos para a sociedade e para a natureza.
Conforme informações da União da
Agroindústria Canavieira de São Paulo
(ÚNICA), amparados por uma lei, aprovada pelo
governo estadual, as usinas poderão continuar
com a prática até o ano de 2021. As conseqüências
têm sido desastrosas, principalmente na região
ribeirão-pretana, que conta com aproximadamente
30 empresas (entre usinas e destilarias) que se beneficiam
das queimadas.
A cidade de Sertãozinho, a cerca de 22 quilômetros
de Ribeirão Preto, sofre de maneira considerável
os impactos socioambientais causados pela queima da
cana. Algumas donas de casa reclamam da constante alergia
dos filhos, como é caso de Solange Maria Torres.
“Durante a safra cai carvão o tempo todo.
Aqui em casa estamos sempre com tosse”. De acordo
com o médico Dr. Marcos Rogério Fabris
Zamoner, as queimadas aumentam os casos de asma, bronquite
e rinite na população, mas diz que ainda
não há estudos que relacionem algum tipo
de câncer a partir do contato físico com
o carvão.
Outra reclamação dos moradores é
quanto à quantidade de água utilizada
durante este período. Segundo a moradora Maria
de Moura de Almeida, é necessário lavar
o quintal todos os dias. “Uso muito mais água
nessa época e o gasto em casa aumenta”,
afirma.
Os humanos não são os únicos que
sofrem os efeitos das queimadas. A fauna acaba muito
castigada também. Segundo o sargento Joaquim
Francisco Sorreição, do Corpo de Bombeiros
local, por causa do incêndio nos canaviais, muitos
animais fogem assustados para a zona urbana e invadem
residências. “Com freqüência
somos acionados para resgatar animais dentro da cidade.
Já resgatamos cobras, gambás, micos e
teiús”. O sargento disse ainda que certa
vez participou de uma ação para apagar
o fogo de uma propriedade, que foi invadida por um incêndio
canavieiro. “Em meio ao fogo encontramos uma preá
com muitas queimaduras. Nós a levamos ao veterinário,
mas ela não sobreviveu”. Os animais saudáveis
que são resgatados pelos bombeiros são
devolvidos ao habitat natural e aqueles muito feridos,
sem chance de voltar à natureza, são tratados
e seguem para o bosque de Ribeirão Preto.
De acordo com a ONG Greenpeace, a queimada, apesar de
ser a responsável por cerca de 25% da poluição
da atmosfera terrestre, agride até mesmo o solo.
O técnico em agropecuária, Alécio
José, afirma que a terra fica pobre em micronutrientes
e torna-se estéril.
Os vilões do clima são muitos. Alguns
deles são velhos conhecidos e os problemas que
eles podem causar são os mais variados possíveis.
Se a redução dos gases estufa não
acontecer o quanto antes, dentro de pouco tempo os homens
não enxergarão um horizonte azul, mas
sim um horizonte cinza, da mesma cor das agressões
feitas à natureza.
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