| Olívia
Pereira
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“Qualquer ato ou conduta
baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento
físico, sexual ou psicológico à
mulher, tanto na esfera pública como na esfera
privada”. Esta é a definição
adotada, no ano de 1994, pela Convenção
Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência
Contra a Mulher.
A cada quatro minutos uma mulher é agredida em
seu próprio lar por uma pessoa com quem mantém
relação de afeto. Os dados, divulgados
pela organização não-governamental
internacional Ipas, mostram ainda que 70% dos incidentes
acontecem dentro de casa e que o agressor é o
próprio marido ou companheiro. Mais de 40% das
violências resultam em lesões corporais
graves decorrentes de socos, tapas, chutes, amarramentos,
queimaduras, espancamentos e estrangulamentos.
De acordo com o instituto, o Brasil é o país
que mais sofre com a violência doméstica,
perdendo cerca de 10,5% do seu PIB em decorrência
do problema. A dona de casa D.M.V., de 41 anos, faz
parte das estatísticas. Durante os sete anos
em que ficou casada, ela confessa ter sofrido agressões
por diversas vezes. “Meu marido chegava bêbado
em casa e, por qualquer motivo, batia em mim”,
relata emocionada. O fim do “pesadelo” se
deu após a dona de casa ter denunciado seu agressor
numa delegacia especializada nesses casos. “Tive
medo, mas fiz o que era necessário para que minha
vida pudesse seguir em frente”, afirma.
Segundo a Organização Mundial da Saúde
(OMS), em seu Informe Mundial sobre Violência
e Saúde, quase metade das mulheres assassinadas
são mortas pelo marido ou namorado, atual ou
ex. A violência responde por aproximadamente 7%
de todas as mortes de mulheres entre 15 e 44 anos no
mundo todo. Em alguns países, até 69%
das mulheres relatam terem sido agredidas fisicamente
e até 47% declaram que sua primeira relação
sexual foi forçada. “As conseqüências
do abuso são profundas, indo além da saúde
e da felicidade individual e afetando o bem-estar de
comunidades inteiras”, afirma a psicóloga
Maria Clara Fernandes Ludolf.
Embora muitas vezes o álcool, drogas ilegais
e ciúmes sejam apontados como fatores que desencadeiam
a violência contra a mulher, na raiz de tudo está
a maneira como a sociedade dá mais valor ao papel
masculino, o que por sua vez se reflete na forma de
educar os meninos e as meninas, diz a psicóloga.
De acordo com Maria Clara, “enquanto os meninos
são incentivados a valorizar a agressividade,
a força física, a ação,
a dominação e a satisfazer seus desejos,
inclusive os sexuais, as meninas são valorizadas
pela beleza, delicadeza, sedução, submissão,
dependência, sentimentalismo, passividade e o
cuidado com os outros”.
Dados da OMS mostram que mais da metade das mulheres
agredidas sofrem caladas e não pedem ajuda. Para
elas é difícil dar um basta naquela situação.
Muitas sentem vergonha ou dependem emocionalmente ou
financeiramente do agressor; outras acham que “foi
só daquela vez” ou que, no fundo, são
elas as culpadas pela violência; outras não
falam nada por causa dos filhos, porque têm medo
de apanhar ainda mais ou porque não querem prejudicar
o agressor, que pode ser preso ou condenado socialmente.
E ainda tem também aquela idéia do “ruim
com ele, pior sem ele”.
A violência contra a mulher, além de ser
uma questão política, cultural, policial
e jurídica, é também, e principalmente,
um caso de saúde pública, já que
muitas mulheres adoecem a partir de situações
de violência em casa.
No território
nacional
O DataSenado, inaugurado pelo Senado Federal em 2005,
aplicou pesquisa telefônica nacional nas 27 capitais
brasileiras para investigar as discrepâncias entre
a rejeição contra a violência e
a prática social brasileira. No universo pesquisado,
17% das entrevistadas reconhecem já ter sofrido
algum tipo de violência doméstica. Deste
total, 54% afirmam ter sofrido violência física,
seguida pela violência psicológica (24%),
violência moral (14%) e, apenas, 7% assumiram
ter sofrido violência sexual doméstica.
Das mulheres que reconhecem, nesta pesquisa, que já
sofreram violência doméstica, 66% responderam
ser o marido/companheiro o autor da agressão.
A pesquisa ratifica dados da OMS que apontam que metade
dos crimes cometidos contra a mulher é de autoria
dos maridos em todo o mundo.
De acordo com o DataSenado, os avanços na legislação,
a força dos movimentos organizados das mulheres
e a criação de Delegacias Específicas
de proteção à mulher vêm
estimulando avanços no combate à violência
feminina. Das mulheres que reconhecem já terem
sido vítimas de violência doméstica,
16% denunciaram a agressão em uma delegacia comum,
enquanto 22% procuraram a delegacia da mulher. Isto
demonstra um avanço na conscientização
dos direitos femininos. Para outras entrevistadas (25,2%),
silenciar socialmente foi a decisão tomada. 22,3%
procuraram, nos episódios de violência,
a ajuda da família.
Segundo a Sociedade Mundial de Vitimologia (Holanda),
que pesquisou a violência doméstica em
138 mil mulheres de 54 países, 23% das mulheres
brasileiras estão sujeitas à violência
doméstica.
Lei Maria da Penha
A Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria
da Penha), “Cria mecanismos para coibir a violência
doméstica e familiar contra a mulher, nos termos
do § 8º do art. 226 da Constituição
Federal, da Convenção sobre a Eliminação
de Todas as Formas de Discriminação contra
as Mulheres e da Convenção Interamericana
para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra
a Mulher; dispõe sobre a criação
dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher; altera o Código de Processo
Penal, o Código Penal e a Lei de Execução
Penal; e dá outras providências.”
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