| Thais
Ferreira Guimarães
Ana Vitória Sartori
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O momento é de festa,
afinal não é todo dia que uma cidade chega
aos 150 anos de vida. Ao longo desse um século
e meio de existência, Ribeirão Preto já
colecionou vários títulos: Capital do
Café, Capital da Cultura, Capital do Chopp, e,
mais recentemente, Capital do Agronegócio. Alguns
desses nomes vieram para ficar. Outros nem tanto. Acabaram
esquecidos, ao longo da história de desenvolvimento
econômico da cidade.
A acolhedora Ribeirão Preto, atualmente, com
cerca de 551 mil habitantes, segundo o IBGE, também
viu surgirem problemas que, ainda hoje, fazem parte
de sua rotina. Um deles é o excesso de migração.
Milhares de pessoas que vieram para o nordeste paulista
à procura de oportunidades de emprego, principalmente
voltados à mão-de-obra do corte da cana-de-açúcar,
e que nem sempre conquistaram seus objetivos. Um dos
motivos que tornaram Ribeirão Preto atrativa
aos migrantes foi o rótulo de “Califórnia
Brasileira”. Um termo criado pela mídia
e que se espalhou pelos rincões do Brasil.
Migração
e demanda
A conta é simples. Quanto mais gente desembarcando
para ficar em Ribeirão Preto, maiores os gastos
por parte do poder público. De acordo com estudo
do pesquisador, Carlos Roberto Campello, da Faculdade
de Economia e Administração da USP/RP
(FEA), hoje, o orçamento da Prefeitura Municipal,
de Ribeirão Preto, para 2006, apresenta um déficit
de quase 10%, ou seja, cerca de R$ 63 milhões,
segundo dados da Secretaria Municipal da Fazenda. “Na
prefeitura de Ribeirão Preto, gastar mais do
que se arrecada sempre foi um problema histórico”.
Segundo Campello, o aumento da demanda gera o aumento
das despesas públicas. O setor de saúde
é um exemplo. Isso, de alguma forma, faz cair
a qualidade dos serviços públicos prestados
à população”. Ainda segundo
o pesquisador, o desequilíbrio dos cofres públicos
reforça a necessidade de se arrecadar mais. Aí
vem a questão tributária. “Para
arrecadar mais é preciso aumentar impostos. É
a maior fonte de recursos da prefeitura. À medida
que esse quadro evolui, a cidade vai perdendo competitividade,
em relação às outras regiões
de São Paulo e do País. Ribeirão
Preto, definitivamente, não é mais a Califórnia
Brasileira, e muito menos a Califórnia Paulista”,
observa.
Crescimento desordenado
Outro problema que se agravou, ao longo desses 150 anos,
foi o que se chamou de expansão urbana desordenada.
Segundo o arquiteto e urbanista, José Antônio
Lanchoti, na década de 80, Ribeirão Preto
sofreu uma explosão na área central. "Esse
interesse foi despertado pelos seguidos planos econômicos.
Aos poucos, parte da população que dispunha
de um alto poder aquisitivo começou a procurar
edifícios altos, apoiados no conceito de segurança
(...) Com isso, as casas do centro que antes despertavam
grande interesse, começaram a dar espaço
às edificações altas. Um casarão
onde moravam cinco pessoas de repente torna-se um prédio
com diversos andares e em cada andar diversas pessoas,
que moram no local que antes era habitado pelas cinco
pessoas", exemplifica Lanchoti.
Mas se isso acontecer em todos os terrenos da cidade?
Segundo Lanchoti, isso geraria graves problemas à
população. “Assim a administração
pública começaria a perder o controle
da água, do esgoto e o trânsito tornar-se-ia
caótico”.
Um dos reflexos da falta de planejamento pode ser notado
nas regiões próximas aos córregos
que cortam a cidade. A ocupação das áreas
de várzea agravou o problema das enchentes. Prejuízo
incalculável ao se levar em conta o tempo da
história. José Luiz Barco, de 34 anos,
é gerente de uma loja na avenida Francisco Junqueira,
na região da “baixada”. Ele alega
que, devido aos prejuízos provocados pelas enchentes,
a loja em que trabalha vai mudar para um local mais
alto. "Nosso gasto com a última enchente
já chega perto de R$ 250 mil, entre prevenção,
limpeza, manutenção, produtos perdidos.
Fora a queda no movimento quando a temporada de chuvas
começa", desabafa.
“O que acontece na loja em que o José Luiz
trabalha, é resultado do crescimento pelo qual
Ribeirão Preto vem passando. Um crescimento que
faz com que a cidade perca o controle e não consiga
administrar os danos”. Ainda de acordo com Lanchoti,
devido a esse alto crescimento populacional, diversos
bairros e empreendimentos novos são arquitetados
todos os anos. “É por isso que cada vez
mais, a sociedade demonstra que necessita de áreas
verdes, como o Parque Curupira, que foi criado no intuito
de dar aos ribeirão-pretanos uma melhor qualidade
de vida, com um espaço grande em um lugar privilegiado
da cidade", acrescenta Lanchoti.
No dia 10 de outubro de 2006, vence o prazo para que
a Prefeitura apresente e a Câmara de Vereadores
aprove o chamado “Plano Diretor” que é
o conjunto de normas e diretrizes para que a cidade
tenha uma expansão urbana sustentável.
Pouco verde
Em relação às áreas verdes
da cidade, foram 150 anos implacáveis. O ciclo
do café, a força da cana-de-açúcar
que hoje cerca Ribeirão Preto por todos os lados.
Segundo pesquisa da bióloga Olga Koptchekoff,
de toda a vegetação que cobria a área
do município de Ribeirão Preto, quando
de sua fundação, em 1856, restam apenas
4%. Os outros 96% foram desmatados ao longo dos anos.
Uma comparação feita por fotos de satélite
possibilitaram essa constatação. “É
importante a criação de Áreas de
Proteção Ambiental (APA), para potencializar
as ações de conservação
destas áreas", alerta Olga. Originalmente,
a vegetação predominante no município
de Ribeirão Preto é a Mata Atlântica.
Saúde na
UTI
No setor de saúde, Ribeirão Preto vive
uma contradição. É pólo
de excelência em ensino médico e pesquisa,
através das faculdades de medicina e enfermagem
da USP, no entanto, sofre com as condições
precárias do atendimento nos postos da Rede Municipal
de Saúde. A população aponta a
falta de médicos como um dos maiores problemas.
O aposentado Sebastião Pereira, de 81 anos, conta
que passou por alguns problemas ao ser atendido pela
rede pública. "Não entendo o que
aconteceu. Só sei que fiquei quase quatro meses
com a bacia quebrada e ninguém descobria. Até
que um médico solicitou um exame que nenhum outro
havia solicitado, e assim, descobriram o que eu tinha
(...) Lembro que por volta dos anos 80, até os
anos 90, quando precisei, sempre fui bem atendido".
A médica Daniela Aparecida de Moraes, de 29 anos,
analisa que com o passar dos anos, a população
cresceu em um ritmo que não pode ser acompanhado
pelo poder público. “A demanda aumentou
muito. A situação atual só poderia
melhorar com a contratação de mais médicos
que possam suprir a necessidade que os postos de saúde
estão sofrendo".
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