| Daiana
Selli
Tatiane Guidoni
________________________
Seja pela falta de profis-sionalização
ou pela competição no mercado de trabalho,
muitos brasileiros optam pela informalidade, trabalho
sem registro em carteira. Essa é a característica
da realidade econômica atual do país.
Segundo pesquisa realizada pela Seade (Fundação
Sistema Estadual de Análise de Dados), 40% dos
chefes de família, no Estado de São Paulo,
estão no mercado informal. Nas classes D e E,
menos de um terço dos trabalhadores possui registro
em carteira.
O vendedor ambulante Sebastião Ferreira Santana,
37, diz que o trabalho informal não é,
para ele, uma opção, mas uma necessidade:
“Só estudei até a oitava série,
não tenho profissão. Tenho que aceitar
a realidade”. Santana, que fatura pouco mais de
um salário mínimo por mês, é
separado e paga pensão de dois filhos. Ele já
trabalhou com carteira assinada e diz que, se tivesse
oportunidade, voltaria para o setor formal. O ambulante
não quer que seus filhos sigam seus passos. “Faço
questão que eles estudem para terem uma profissão.
Se não tiverem emprego, pelo menos terão
esperança”.
Para o economista e professor AntônioVicente Golfeto,
o trabalhador perde, mas em termos. “Já
não são poucos os que preferem não
ser registrados exatamente porque, assim, não
teriam descontos em folha”.
Segundo Golfeto, o país só perde com relação
à concorrência desleal. “Do ponto
de vista da lisura na competição, é
evidente que há arranhões. Agora, economicamente,
em minha opinião, o país ganha com a infor-malidade,
sobretudo quando o nome desta informalidade é
sonegação de imposto. A inversão
é tão grande nos valores que, atualmente,
um real que fique no bolso do contribuinte, tanto pessoa
física quanto pessoa jurídica, multiplica
mais do que o mesmo real recolhido aos cofres públicos”.
José Faleiro de Aguiar, 69, há 34 anos
trabalha no setor informal. Trabalhou como caminhoneiro,
mas desistiu por medo das estradas. “Perdi muitos
amigos nesta profissão”, conta Zé
Garapeiro, como é conhecido pelos moradores da
cidade de Sertãozinho, onde vive e trabalha.
Mineiro, de Carmo do Cajuru, o gara-peiro ganhou, em
2004, título de “cidadão sertanezino”,
votado com unanimidade pelos vereadores da cidade. Aguiar
se sente feliz com a homenagem, mas reclama da discriminação
por parte da sociedade. “Há muito preconceito
com a gente, que é vendedor ambulante”,
desabafa. Ele ganha cerca de R$1mil por mês, além
do benefício de R$ 300 de amparo ao idoso. Aguiar
diz que nunca pensou em sair do setor informal, apesar
das dificuldades.
Para o economista Golfeto, o crescimento do trabalho
informal é um reflexo do sistema econômico
do país. “É a legítima defesa,
contra um regime econômico que o fustiga [o trabalhador]
de todas as maneiras”.
|