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Murilo Bereta
Ribeirão Preto
é conhecida pelo número elevado de praças
comunitárias nos bairros da cidade. Mas, devido
à falta de manutenção, muitos desses
espaços verdes, que antes eram dedicados ao lazer
das famílias, passaram a ser freqüentados
por drogados e criminosos.
Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística), até o último Censo,
eram 184 praças no município. Muitas delas
foram abandonadas pelo poder público, o que levou
os moradores, motivados por ações cidadãs,
a melhorarem uma dessas praças por conta própria.
Antônio Carlos da Silva, motorista do Hospital
das Clínicas, há 11 anos morador do bairro
Jardim Independência, mobilizou amigos e vizinhos
e, juntos, reestruturaram uma das praças do bairro.
Degradada pelo tempo e pela ação de vândalos,
a praça Armando Lopes, localizada na rua Guiana
Inglesa, era ponto de usuários de drogas. “Da
minha casa dava para vê-los usando drogas na praça”,
disse Antônio Carlos.
Há dois anos, Antônio Carlos e dois vizinhos,
após procurarem o auxílio da prefeitura
e ouvirem que não havia verbas para a reforma
do local, resolveram remodelá-la por conta própria.
O trabalho começou com a conscientização
dos moradores próximos à praça
para que os auxiliassem no trabalho de reconstrução.
“Ouvi muitas críticas, falavam que eu era
louco por trabalhar de graça, mas alguns moradores
compraram a idéia e começamos a reforma”,
relembra Antônio Carlos.
Trabalhando nas horas de folga, o grupo conseguiu substituir
o perigo, o mau cheiro e a escuridão da praça
abandonada por um chafariz central, gramas e plantas
bem cuidadas, bancos e iluminação nova.
Sebastião Carlos de Souza, alfaiate, morador
local e que também está no projeto desde
o início, afirma ter sido o tesoureiro do grupo.
A verba para a reforma veio de comerciantes que colocaram
seus anúncios nos bancos da pracinha e do dinheiro
arrecadado dos próprios moradores da região.
“Gastamos cerca de R$ 5 mil na reestruturação
do local”, calcula Sebastião.
O sociólogo e historiador Maurício Lobo
analisa a atitude da comunidade como uma resposta da
sociedade civil organizada ao poder público.
“Os moradores demonstraram que, juntos, conseguiram
realizar uma obra que era da prefeitura e que, seja
por falta de verba ou desinteresse, o poder público
não conseguiu fazer”. Embora considere
importante a atitude do grupo, o sociólogo adverte
para o perigo da inversão de valores. “Precisamos
exigir que o Estado assuma as responsabilidades que
lhe cabem”. Para ele, existem funções,
como educação e saúde, que a comunidade
não terá recursos para melhorá-las
e cabe ao Estado fazê-las.
Tímido e de fala mansa, Antônio Carlos,
satisfeito ao ver o resultado final da reconstrução
daquele espaço comunitário, declara que
hoje a tarefa de conservação da praça
foi facilitada. “Agora toda a comunidade local
me ajuda no serviço de manutenção
da praça”. Manutenção essa
que é prioridade para Antônio Carlos. Algo
que pode ser facilmente percebida devido à limpeza
do local, às placas de “Favor não
pisar no gramado” e ao esguicho ligado para molhar
as plantas.
A praça Armando Lopes, segundo Antônio
Carlos, significa um local de paz para os moradores
da região. “As famílias voltaram
a freqüentar este espaço. Algumas vezes
temos festas, músicas e serenatas com chorinho”.
Frase que é complementada por Sebastião
de Souza. “Esta praça é uma extensão
da casa da gente”. Antônio Carlos, Sebastião
e os demais moradores, através de seus atos,
mais do que cultivar jardins, também cultivam
cidadania.
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