| Michele
Pieri
Viviane Gomide
Ainda existem poucos estudos
e escassa literatura sobre a enfermidade, mas se sabe
que indivíduos acometidos por este transtorno
podem apresentar alguns distúrbios, entre eles,
o mais comum é a depressão. O termo cleptomania
foi criado há mais de dois séculos para
descrever o impulso de roubar objetos desnecessários
ou de pequeno valor. Segundo Sílvia Helena Cardoso,
psicobióloga, os objetos não são
roubados por sua utilidade imediata ou seu valor monetário.
O sujeito pode, ao contrário, querer descartá-los,
dá-los ou acumulá-los.
Presume-se que a doença seja um distúrbio
raro, embora poucos estudos tenham sido feitos sobre
sua presença na população. “Estudos
feitos com ladrões de lojas sugerem que somente
uma pequena parcela, de 1 a 8%, represente casos verdadeiros
de cleptomania. A doença pode atingir crianças,
adultos e idosos, indistintamente, sendo mais comum
em mulheres”, acrescenta Sílvia.
De acordo com a psicóloga Nancy Erlach, muitos
dos indivíduos com cleptomania evitam furtar
quando alguma conseqüência mais grave pode
acontecer. “Tive o caso de um paciente que não
se controlava de forma alguma, porém, quando
percebia que havia câmeras no estabelecimento
ou que a polícia pudesse chegar, com certeza,
abortava a ação”.
A novela da Rede Globo, “América”,
exibida em horário nobre, já começa
a retratar o problema através da personagem de
Cristiane Torloni. As emoções da personagem
oscilam entre o desejo de possuir algo, a tensão
em obter e não ser pega em flagrante e a culpa
pelo prazer que se instala após o delito.
Nancy explica que a principal causa da cleptomania é
uma forte carência de carinho e atenção.
O processo costuma ter início na infância.
“A criança tem uma profunda falta de afeto
que a leva, geralmente, ao desespero”. Segundo
ela, os pais devem tomar muito cuidado, pois a falta
de tempo e o pouco contato com a criança podem
desencadear este processo sem que se perceba. “As
crianças precisam de atenção, carinho,
amor e compreensão. Sem isso, elas, que ainda
estão formando seus sentimentos, podem desviar-se
para qualquer compulsão, entre elas a cleptomania”.
A psicóloga revela que quando as crianças
sentem-se frustradas, roubam na tentativa de conseguir
o amor que precisam e não recebem dentro de casa.
“Nesses casos, o objeto roubado assume um valor
simbólico. Ela está, na verdade, resgatando
o amor que lhe falta”.
Para Sílvia Helena, os sintomas mais comuns associados
ao cleptomaníaco parecem estar ligados ao distúrbio
do humor. A maioria dos estudos de “ladrões
anormais” (pessoas que foram apreendidas roubando
e encaminhadas para avaliação psiquiátrica)
tem descrito taxas elevadas de sintomas depressivos.
Dos 57 pacientes cleptomaníacos, 57% mostraram
sintomas afetivos e 36% provavelmente encontrariam um
diagnóstico para depressão.
Adultos com cleptomania roubam porque isto oferece alívio
ou conforto emocional, “Infelizmente, poucas pessoas
procuram tratamento até que são pegas
roubando”, alerta psicóloga Edenilce Baldini
Benetti.
Não existem estudos controlados de tratamentos
somáticos ou psicológicos para cleptomania.
Edenilce afirma que a ajuda, muitas vezes, vem com o
auxílio de medicação associada
à terapia. “O autoconhecimento é
essencial nestes casos. Geralmente o distúrbio
atinge mais mulheres e os sintomas vêm associados
à instabilidade de humor. Através da fala,
a paciente vai reorganizando sua história emocional
e suas vivências. O processo é lento, mas
indispensável para trazer alívio e respostas
para o indivíduo”, finalizou.
Nancy explica que o melhor a fazer é tratar o
paciente com terapia e realizar análise contínua,
já que o desaparecimento total e definitivo da
cleptomania é difícil. Ao menor sinal,
os pais devem procurar um profissional capacitado para
tentar parar a evolução da cleptomania.
“O trabalho realizado na psicoterapia é
buscar o desenvolvimento do autocontrole da pessoa.
Devemos ter um diálogo aberto com o paciente
e jamais culpá-lo pelo seu ato. É importante
fazê-lo entender o que a enfermidade causa para
ele e para a sociedade, que envolve família e
amigos”, finaliza a psicóloga.
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