| Tassiane
Mariano
Uma população estimada de 19 mil pessoas,
distribuída em cerca de 3 mil barracos, vive
com rede de água, esgoto e energia elétrica
clandestinas, ruas sem asfalto, moradias de madeira
e alvenaria, sem o serviço de coleta de lixo,
sem telefone público e com alto índice
de analfabetismo. Esta é a realidade dos moradores
das favelas de Ribeirão Preto. A cidade possui
31 favelas, a maioria na região norte, em lugares
que, segundo a Secretaria de Planejamento, seriam destinadas
às áreas verdes, de lazer ou institucionais.
Cerca de 90% das pessoas ou famílias vieram de
cidades dos Estados de Minas Gerais, São Paulo,
Mato Grosso, Paraná, Bahia, Alagoas, Pernambuco
e Paraíba. Eles deixaram tudo o que tinham para
buscar uma oportunidade de emprego. Esta situação
fez com que o atual governo municipal preparasse um
projeto de desfavelamento para a cidade. A coordenadora
do programa, Carolina Queiroz, explica que essa proposta
de reabilitação dos moradores das favelas
está dividida em três partes fundamentais.
A primeira é gerar um sistema de renda para as
famílias, encaminhando as pessoas para cursos
profissionalizantes. “Com educação
e profissão, a auto-estima dessas pessoas melhora”,
afirma. A segunda parte prevê encontrar trabalho,
através de parcerias da prefeitura com empresas
locais. “Há necessidade de desenvolver
um trabalho mais complexo com os adolescentes, é
preciso ocupá-los. Já os adultos serão
reaproveitados em atividades de construção
civil, limpeza e reciclagem, por exemplo”, acrescenta
a coordenadora. A terceira parte é gerar condições
para se fazer um mutirão de construção,
também através de parcerias, que disponibilizaria
os materiais necessários para as obras das moradias.
“Com moradia e emprego, não há necessidade
de voltarem para a favela”, enfatiza.
Carolina diz ainda que o Ministério Público
aprovou o projeto e vai solicitar R$ 180 milhões
para realizá-lo. “Fizemos uma reunião
com os representantes de cada favela para apresentar
o projeto e para tirar dúvidas. Queremos saber
do que mais precisam, quais são suas principais
necessidades para, juntos, resolvermos este problema.
Estamos esperando uma resposta”, diz ela.
“Estamos apostando neste projeto, mas precisamos
que todos contribuam. É um trabalho para ser
realizado em longo prazo. Com certeza, não teremos
uma resposta imediata. Vamos trabalhar com a remoção
de uma favela por vez, para não perdermos o controle.
Começaremos pelas maiores, as favelas das Mangueiras
e a do Simione”, afirma Carolina.
Para Cristiane, 27, que mora na favela da Mangueira
há 26 anos, esse é só mais um projeto
como todos os outros que foram apresentados nos últimos
dez anos, sem que saíssem do papel. “É
difícil retirar os moradores daqui, pois se estamos
aqui é por falta de melhores condições
de vida. Aqui, não pagamos aluguel, cada um cuida
da sua vida, todos procuram se ajudar. Afinal de contas,
estamos nas mesmas condições”. Para
ela, outro problema é conseguir um emprego. “O
preconceito é grande, as pessoas acham que quem
vive na favela é gente que não presta.
Só que também moram pessoas honestas,
que vivem aqui por falta de opção. O que
eu mais quero é ter minha própria casa
e condições de dar uma vida melhor para
meu filho”.
Elizabete Severino Cosmo, 40, moradora da favela há
8 anos, relata que é bom viver onde está.
“A convivência com os outros moradores é
boa, aqui é seguro, ninguém mexe nas coisas
dos outros. O único problema é a polícia
que invade nossas casas, não respeita nossa privacidade
nem ninguém. Só saio daqui se for para
ter uma vida melhor onde não me olhem com ar
desconfiado quando eu disser de onde vim”.
Já Maria Cleide diz que o que mais quer é
sair da favela.”Tenho três filhos, aqui
não é lugar para criá-los. Esta
é a primeira escola para as drogas e a marginalidade.
Só estou aqui por não ter condições
de viver num lugar melhor. Vim de Fortaleza em busca
de uma vida mais digna, foi ilusão. Paguei R$
1,5 mil por esta casa. Era tudo que eu tinha. Aqui se
compram as paredes, o telhado e a permissão para
morar, porque o resto não é nosso. Tomara
que esse projeto dê certo”, comenta.
A opinião das crianças é outra.
“Todo mundo é amigo. Nós estudamos,
brincamos e não queremos sair”. Alguns
adolescentes têm a mesma opinião das crianças.
“Aqui conhecemos todo mundo, há muito respeito,
é um bom lugar. A maior dificuldade que encontramos
é com relação ao emprego e à
continuidade dos estudos”.
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