Publicação Bimestral do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Barão de Mauá

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O suor que não pára
Hiper-hidrose: uma doença que já tem solução

SUOR EXCESSIVO 0,5 a 1,5% da população sofre de hiper-hidrose

 

Alexandra Onofre e Renata Magnenti

 

Claudinei Garcia, 31, jornalista, percebeu que tinha um sério problema quando foi padrinho de um amigo. “Certa vez fui padrinho de um amigo e percebi que estava suando muito. Cruzei as mãos para baixo e senti o suor escorrer. Não queria secar as mãos, porque estávamos na formalidade habitual da cerimônia. Quando olhei para o chão, tinha uma poça d’água, de uma circunferência de aproximadamente 40 cm. Pensei: ‘Meu Deus, é muito sério, isto está me prejudicando’”.
Desde os sete anos, Garcia conviveu com um suor excessivo, conhecido clinicamente como “sudorese excessiva”. Quando iniciou o ensino fundamental era motivo de chacota, pois andava com um lenço para conter o suor de suas mãos. Em dias de exames chegava a rasgar a prova, pois as mãos ficavam ensopadas, e acabava encharcando a folha.
Seus pais não tinham conhecimento do que estava acontecendo e, na época, a medicina não tinha solução para o caso. Garcia passou por vários constrangimentos, a ponto de cumprimentar alguém e esta pessoa enxugar as mãos na sua frente.
Vendo que o problema não diminuía, o jornalista começou a procurar profissionais da saúde que pudessem orientá-lo. “Um médico me receitou um creme, passei e ficou pior. Minhas mãos ficaram emplastadas, melequentas”, lembra. A sudorese excessiva é um distúrbio característico da hiper-hidrose. Trata-se de uma doença que atinge 0,5% a 1,5% da população, segundo o médico Nei Dezotti, especialista em hiper-hidrose.
O médico explica que em Ribeirão Preto é provável que cerca de 2.500 a 7.500 habitantes sofram com o incômodo da hiper-hidrose. Segundo ele, a doença é um problema que se localiza em partes específicas do corpo. Essa produção exagerada de suor ocorre porque o nervo que estimula a produção da sudorese trabalha mais. Os motivos desse defeito são desconhecidos. “Essa sudorese aumentada pode ocorrer nas mãos, nas axilas, nos pés, nas virilhas, na face ou em uma combinação de regiões, tais como pé e mão, axila e face, pé e axila”, explica Dezotti.
A incidência da doença não está concentrada em homens ou mulheres, nem há uma idade em que apareça mais. Porém, no período da adolescência, geralmente, a hiper-hidrose se intensifica, devido às mudanças hormonais. Sabe-se também que o caráter hereditário é importante, mas até hoje a medicina não provou nada. No entanto, a incidência é grande entre irmãos e primos de primeiro grau.
O doutor ressalta ainda que o estresse não é a causa da hiper-hidrose. “A doença é uma disfunção e o estresse pode acentuar qualquer doença. É comum pessoas procurarem tratamentos encaminhadas por psiquiatra e psicólogo que dizem que o paciente tem um problema causado por estresse”.
A transpiração em partes específicas do corpo pode causar algum grau de exclusão social. “Para uma pessoa que tem hiper-hidrose nas mãos e realiza atividades manuais, o problema irá impossibilitá-la de fazer seus trabalhos. Tudo escorrega da mão. Caso a pessoa trabalhe com papel, irá rasgá-lo. Se com digitação, estragará o teclado”, exemplifica o doutor.
A estudante Lívia Andrade teve um colega de classe que era portador de hiper-hidrose nas mãos. “Um dia, fui fazer uma atividade com ele e só de colocar as mãos sobre as folhas ele molhou todo o trabalho. Ele acabava ficando sozinho”, disse.
Claudinei lembra que certa vez suas mãos pingavam tanto que o suor caiu no teclado do computador em que trabalhava. “Parece mentira, mas a placa do computador queimou. Era muito suor, fiquei sem o comando para digitar. Muitas vezes, objetos que não tinham uma superfície em relevo ou áspera caíam das minhas mãos, porque iam escorregando”, conta.
Para uma pessoa que tem hiper-hidrose nas axilas ou na face o constrangimento também é grande. Nas axilas a camisa está sempre molhada, o que pode parecer falta de higiene, quando, na realidade, o problema é outro. Pessoa que sofre de sudorese facial sempre está com o rosto pingando.
Há tratamento clínico e cirúrgico para auxiliar quem sofre de hiper-hidrose. Existem remédios que fazem com que o suor diminua. Porém, estes medicamentos também são usados por quem sofre de pressão alta. Logo, a hiper-hidrose será controlada e a pressão ficará alterada. Outra maneira é usar cremes para tentar secar as mãos. Segundo Dezotti, acaba sendo pior, pois vira uma pasta e o suor acaba aumentando. Outro recurso usado é o botox. O paciente levará de 50 a 60 picadas de injeção na região onde há hiper-hidrose. Este tratamento tem um custo alto e os efeitos duram de um a seis meses. Há também o tratamento cirúrgico, com uma técnica pouco invasiva, segundo Dezotti. Nestes casos, são feitos dois furos no tórax e os nervos defeituosos são cortados.
Segundo o médico, a cirurgia é simples, porém tem implicações. “Não podemos secar o corpo inteiro do paciente. É o suor que controla a temperatura corporal. A pessoa passará de uma situação de hiper-hidrose para secura total na área operada e deverá passar qualquer tipo de creme hidratante para o resto da vida, para evitar que a pele trinque e machuque”.
Garcia passou por esta cirurgia. “Hoje tenho prazer de pegar nas mãos das pessoas. Tive uma recuperação rápida porque fui a um especialista no assunto. É importante que as pessoas encontrem o profissional adequado para o caso”. Ele afirma ainda que ganhou tempo para desenvolver suas atividades.
O suor que foi suprimido com a operação poderá se deslocar para outra área. Esse efeito é chamado de hiper-hidrose compensatória. “A intensidade do suor excessivo é deslocado para outra região. Isso ocorre em 20% a 30% dos pacientes, mas não é uma complicação e sim um resultado”, diz Dezotti. Hoje o jornalista operado tem hiper-hidrose compensatória. Porém, ele ressalta que está muito bem assim. “Tenho hiper-hidrose compensatória no tórax, mas em uma intensidade pequena, que não atrapalha meu dia-a-dia”.