Publicação Bimestral do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Barão de Mauá

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Enfermeiras e pesquisadores avaliam as conseqüências do trabalho noturno em hospitais

PLANTONISTAS Enfermeiros e médicos são submetidos a jornadas de até 12 horas

 

Amanda Cristina Ferreira e Ivani Rosa


Os enfermeiros e os auxiliares de enfermagem estão entre os mais antigos grupos profissionais que trabalham em sistemas de turnos. As escalas de trabalho em hospitais são geralmente organizadas em turnos fixos contínuos, uma vez que os serviços destas instituições exigem um funcionamento ininterrupto durante as 24 horas do dia, sete dias por semana. No Brasil, já é uma tradição adotar-se, para o corpo de enfermagem, o turno de 12 horas de trabalho diário (diurno ou noturno), seguido de 36 horas de descanso.
Segundo a enfermeira Paulinéia de 42 anos, há dez trabalhando em dois empregos, existem dois lados na vida das pessoas que trabalham à noite em um hospital. O lado bom é que sobra tempo suficiente para ter mais de um trabalho e, assim, aumentar a renda familiar. Ela lembra também que houve tempos em que o adicional noturno era muito bom. “Hoje não mais”. O lado prejudicial é que trabalhar à noite, com o passar do tempo, causa prejuízos à saúde. O indivíduo não consegue se alimentar da mesma forma como se fosse durante o dia. E por mais que se durma 12 horas diurnas, a sensação é de que esta não repõe as seis horas perdidas de sono noturno. A principal causa é o ruído sonoro, pois para a maioria é hora de trabalho. Assim, a pessoa que trabalha à noite não tem a mesma qualidade de vida de uma que trabalha oito horas por dia. “A prova disso é que hoje aos 42 anos já desenvolvi hipertensão arterial gravíssima”, afirma.
Paulinéia diz que o trabalho dentro de um hospital durante a noite é muito estressante. A maioria das ocorrências se dá durante a madrugada, principalmente nos finais de semana, quando o consumo de bebida alcoólica é maior. “Se nós profissionais levarmos em consideração a família e o lazer, que sempre ficam em segundo plano em uma noite de Natal, por exemplo, nada disso valeria a pena. Mas nem sempre pode ser uma escolha e sim uma necessidade”.
Uma pesquisa realizada na Faculdade de Saúde Pública da USP, com enfermeiros do complexo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, trouxe à tona dados que servem de alerta. No estudo, foi possível identificar o nível de fadiga dos profissionais, a perda da capacidade para o trabalho e distúrbios de sono relacionados ao serviço noturno. O estudo foi apresentado em junho deste ano pelo biólogo Flávio Notarnicola Silva Borges, sob o título “Repercussões do trabalho em turnos noturnos de 12 horas no sono e bem-estar em auxiliares de enfermagem e enfermeiros”.
A vida dos pacientes hospitalizados está associada à qualidade dos serviços prestados pelos profissionais da saúde. A administração de medicamentos, um procedimento básico da enfermagem, exige um estado de muita atenção. Erros cometidos podem trazer conseqüências irreversíveis para os pacientes, podendo levá-los até mesmo à morte. “A partir do momento em que você está dentro de um hospital, para ajudar pessoas que geralmente se encontram nos momentos mais delicados de suas vidas, é preciso gostar, se doar, amar a profissão para que, no final, por mais que tudo não saia perfeito, sintamos a satisfação do dever cumprido”, declara Paulinéia.