|
Valter Martins e Kiko Magrini
A rotina de quem trabalha durante a noite em um dos
dois cemitérios de Ribeirão Preto é
tranqüila. Os funcionários do Cemitério
da Saudade e do Cemitério Bom Pastor contam que
poucas vezes essa tranqüilidade é quebrada.
Para Orlando Manoel da Silva, guarda-noturno do Cemitério
Bom Pastor, o que acaba com o sossego noturno são
as pessoas que tentam entrar no local para furtar vasos,
argolas, esculturas em bronze e plaquetas feitas em
ferro para vender.
Já no Cemitério da Saudade, segundo Abrão
Calil Bitar, administrador, as pessoas tentam entrar
para fazer bagunça, muitas vezes bêbadas,
saídas de festas. “Agindo dessa maneira,
essas pessoas faltam com o respeito aos mortos e seus
familiares”, diz.
Um episódio que Bitar lembra muito vivamente
é a tempestade que assolou Ribeirão Preto,
em maio de 1994. “Foi um dia em que trabalhei
demais, das duas da tarde às 2 da madrugada.
Essa tempestade inundou diversos locais, inclusive este
cemitério”.
O Cemitério da Saudade é o mais antigo
da cidade e guarda os túmulos de várias
famílias tradicionais de Ribeirão Preto.
Lá estão os jazigos das famílias
Romano Machado, Vitaliano e de vários barões
do café. É onde está também
o túmulo de Zezinho, menino considerado milagroso
por muitos ribeirão-pretanos. Ele morreu de elefantíase
aos 10 anos de idade, na década de 50. Mariana
dos Santos Ferreira diz que já alcançou
muitas graças rezando para o menino. Moradora
do Bairro Campos Elíseos, próximo ao Cemitério
da Saudade, ela concorda que as noites ali são
tranqüilas: “Nunca percebi nada de estranho
no cemitério à noite. É tudo muito
quieto”.
O Cemitério Bom Pastor foi inaugurado praticamente
na mesma época do surgimento do Bairro Novo Mundo,
na década de 1970. Vilma Guerreiro Leite diz
que foi uma das primeiras moradoras da rua que dá
acesso direto ao cemitério. Afirma que as únicas
noites movimentadas ocorrem devido aos velórios:
“Faz pouco tempo que existe um velório
próximo a este cemitério. Antes, tudo
aqui era muito tranqüilo”.
Um caso bastante raro, a necrofilia, aconteceu no Cemitério
Bom Pastor, na madrugada de 25 de dezembro de 1995.
Um jovem invadiu o local e violou o túmulo de
uma jovem de 28 anos, que havia falecido em decorrência
do vírus HIV, dias antes. O rapaz retirou o corpo
da cova, levou-o para a sua residência e tentou
praticar o ato sexual, mas foi impedido por policiais
militares. Segundo o jovem, “Vozes falaram para
eu fazer aquilo. Fui para o cemitério induzido
por elas e tirei o corpo de lá”, alegou
o jovem na época.
Os guardas-noturnos dos cemitérios encaram a
morte de uma maneira bastante normal. Alguns afirmam
que ela é bonita. “Retornamos de onde viemos.
Em vida, aprendemos pouco e aproveitamos muito. Com
certeza, todos morrem aprendendo”, afirma Douglas
Duarte Fernandes, que ocupa o cargo há 4 meses.
“Minha vida com minha esposa e meu casal de filhos
é comum. Não temos preconceito algum”.
Luís, um dos guardas-noturnos do Bom Pastor,
tem uma relação mais direta com os mortos.
Segundo Douglas, outro guarda, “o Luís
é bem respeitado por aqui. Ele faz vários
contatos com as pessoas sepultadas, chega a rezar uma
missa próxima ao túmulo da pessoa falecida”.
José de Oliveira Rodrigues, fiel da Igreja Adventista
do Sétimo Dia, diz que “quem morre, só
descansa após o julgamento final. É assim
que eu encaro a morte”. Ele já foi balconista
e garçom. Há 11 meses ocupa a função
de guarda-noturno do cemitério. Ele afirma que
trabalhar no cemitério é bastante tranqüilo,
embora o tamanho da área seja grande demais para
vigiar.
Um procedimento comum aos dois cemitérios é
a exumação dos corpos dos mortos, que
ocorre de três em três anos. “É
uma lei municipal”, esclarece Bitar. A administração
do Bom Pastor também foi enfática quanto
à proibição de qualquer tipo de
ritual dentro dos limites do cemitério, no período
noturno. Magia, macumba, adoração aos
mortos e encontros góticos não são
permitidos. “Freqüentadoras assíduas,
só mesmo as baratas, que tomam os locais e fazem
a festa”, diz Bitar.
Cemitério da Saudade
Inauguração: 30 de agosto de 1893
Sepultados: 117.000 pessoas
Área: 100.000 m²
Jazigos: 8.500
Cemitério Bom Pastor
Inauguração: 26 de junho de 1974
Sepultados: 42.283 pessoas
Área: 145.000 m²
Jazigos: Não definido (em construção)
|