Publicação Bimestral do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Barão de Mauá

GERAL

Conselho Federal de Jornalismo

O transtorno das manias

Relação professor / aluno

Sudorese

Voluntariado (CVV)

Jovens na política

Mudança de técnicos no Come-Fogo

Legislação sobre tabagismo

Estação de medição de qualidade do ar

Orientação vocacional

Mal de Alzheimer

Espiritismo

50 anos da morte de G Vargas

Lei do Idoso

Orkut

CADERNO TEMÁTICO

Músicos de Ribeirão Preto

Insônia

Plantão policial

GLS

Prostituição

Trabalho do resgate

Peritos criminais

Crimes em Ribeirão Preto

Trabalho no hospital

Cemitério

Motéis

EDITORIAL E ARTIGOS

“Jornal do Barão” passa a ter parte temática

Anarquia na comunicação

Artigo: A mídia empregada como ferramenta de apoio ao professor

Expediente

JORNAL EM PDF!

Músicos de vários estilos se apresentam nas noites de Ribeirão

João Pedro Vicente

Madrugada de sábado. Mais de 50 pessoas esperam na fila para entrar em uma boate, cujo interior já é ocupado por outras seis centenas. Flávia, psiquiatra que não revela a idade – mas aparenta pouco mais de 30 anos – é uma das que esperam pela entrada, visivelmente ansiosa e cheia de perguntas. Ela é heterossexual, e pela primeira vez visita um ambiente especializado GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), acompanhada por uma colega de profissão. “Interessei-me em conhecer esta boate devido à minha profissão, mas também por recomendações de amigos”, diz, antes de expressar sua curiosidade numa série de perguntas a respeito do ambiente e da música. Na medida em que se desloca na fila, as impressões da psiquiatra se desprendem. “É a primeira vez que vejo dois homens abraçados, e são todos muito bonitos. Como dizem na minha profissão, homossexuais são, em geral, muito caprichosos e perfeccionistas, o que se reflete na aparência de muitos aqui”, ela completa.
“Além de organizadas, as boates GLS são muito limpas. A música é moderna e atualizada e os freqüentadores são muito educados”, afirma Talita, universitária de 20 anos. Ela é visitante ocasional destes ambientes, junto com o namorado, Francesco, 21, vendedor. “Há um pensamento machista, uma preocupação em relação a possíveis assédios, mas nunca tive problema algum em boates gays, assim como nunca presenciei nenhum fato constrangedor envolvendo outros”, diz o rapaz.
A noite ribeirão-pretana oferece duas boates GLS, funcionando ambas nas noites de sexta-feira e sábado. Há também um bar especializado, com banda, boate interna, ambiente loungue e mesa de sinuca às quintas-feiras e domingos. Durante todos os dias da semana, um restaurante de comida mexicana serve de ponto de encontro para os públicos homossexual e simpatizante, apesar de não ser oficialmente especializado. “Trata-se de um bar de público selecionado que acabou tornando-se GLS nas entrelinhas, como todo ambiente de preços mais elevados. Não há música e não é permitida a entrada de drag queens ou travestis. É um lugar muito discreto, servindo muito como ponto de encontro anterior à ida a boates”, explica o freqüentador Alexandre Alves, 21, universitário. “Beijos não são muito comuns neste bar, mas quando ocorrem não atraem olhares indiscretos”, Alexandre complementa.
As boates por sua vez, apesar de concorrentes nos horários, têm públicos distintos. Uma delas permite a entrada de travestis e drag queens. A outra, através de cartaz exposto no próprio hall de entrada “reserva-se o direito de selecionar seu público”. As casas também têm uma diferença de preço de 100%. “O preço das bebidas num destes estabelecimentos é bem mais caro que no outro, o que reflete a seleção de público”, teoriza Alexandre. Em ambas não há estacionamento pago; entretanto, naquela onde a entrada é mais cara, há a presença de “guardadores de carros”, que cobram em torno de R$ 3 ao fim da noite. “São estilos diferentes de diversão, quem freqüenta a boate mais popular não a troca pela outra”, é a afirmação de Tiago, 19, freqüentador exclusivo da boate à qual se refere. “A segurança, a estrutura, a música e o público selecionado compensam o preço maior”, coloca por sua vez Daniel, 21, morador da cidade de Franca, cliente do estabelecimento concorrente ao que Tiago freqüenta.
Em comum entre as duas boates, além das pistas de dança e os ambientes loungue, estão os go-go boys e darkrooms. O primeiro termo refere-se aos dançarinos de corpos definidos que dançam de sunga sobre plataformas elevadas; termo desconhecido para a psiquiatra Flávia, acompanhada no início da reportagem. Assim como os darkrooms, salas totalmente escuras e fechadas no interior das boates, onde acompanhado ou sozinho o freqüentador pode entrar, geralmente à procura de experiências sexuais ou maior intimidade com o companheiro ou companheira. “Não se vê com melhores olhos quem entra no darkroom, mas também não chega a haver preconceito. É um hábito ousado”, afirma Gabriela Ribeiro Neves, 22, entre sorrisos, ao tocar no assunto.
Hugo tem 27 anos e mora em Franca. É apenas um entre muitos dos visitantes semanais que Ribeirão Preto recebe em boates gays, vindos de toda a região, e também da capital. “É um pólo nesta forma de entretenimento. Estas boates e bares têm qualidade e formam um bom ponto de encontro”, afirma ele, que freqüentemente migra durantes os finais de semana com alguns amigos francanos. “Um lugar onde as pessoas são livres pra viver suas sexualidades sem pressões. Há mauricinhos, barbies (termo designado para rapazes musculosos, que geralmente dançam sem camisa nas pistas), afeminados, lésbicas, enfim, grupos distintos que geralmente não se freqüentam na sociedade, mas que neste interior coabitam harmonicamente”, Hugo finaliza.
“As mulheres são minoria, talvez 10% do público, e os rapazes heterossexuais vêm geralmente acompanhados por uma namorada. Compõem a maioria então, homens interessados em homens, mas todos bastante respeitadores em relação aos simpatizantes”, analisa Gabriela, adepta de tais ambientes há quatro anos na cidade.
Nem todas as pessoas, entretanto, têm coragem de freqüentar abertamente tais boates e bares. “Sinto vontade, mas ainda não me considero pronto”, afirma Guilherme, dentista de 23 anos. “São as melhores músicas, os ambientes mais modernos, como nas raves, que também são bastante freqüentadas pelo público homossexual”, justifica o professor Ricardo, de 32 anos, heterossexual, quando perguntado a respeito da sua preferência pelo ambiente GLS. Já nas palavras de um freqüentador homossexual, Leonardo, 23, “além da qualidade da balada, a liberdade de expressão afetiva faz toda a diferença; dois aspectos que não se encontram normalmente em boates heterossexuais”.

* Por uma questão de privacidade os nomes do casal de namorados simpatizantes (heterossexuais simpáticos a ambientes especializados gays) foram omitidos durante esta reportagem, assim como de alguns outros entrevistados.