| João
Pedro Vicente
Membro da Academia Ribeirão-pretana de Letras
(ARL) desde o ano de 1981, o escritor e poeta Antônio
Carlos Tórtoro assumiu a presidência da
instituição literária em 1996,
após a abdicação ao cargo do antecessor,
o literato Luiz Carlos Raya. “O próprio
Raya me indicou à presidência, devido a
meu dinamismo, interesse em comunicação
e engajamento”, conta Tórtoro. Autor de
livros como “Ecos” (sua estréia na
publicação de coletâneas poéticas),
“Edelweiss”, “Mosaico” e “Estrelas
no Mar”, Tórtoro tem origem acadêmica
bastante distinta da literatura. Professor de Matemática
e Física, o ribeirão-pretano de 55 anos
entrou para a poesia ocasionalmente. “Sempre gostei
de escrever e comecei a publicar poesias em jornais
da cidade. Para minha surpresa, eram bem aceitas e publicadas.
Com o apoio da escritora Ely Vieitz, hoje vice-presidente
da ARL, decidi dedicar-me mais à escrita. Devo
muito a esta intelectual, que tanto acreditou em mim”.
Antônio Carlos Tórtoro trabalha, ainda
hoje, como orientador educacional em um colégio
da cidade, cujo hino, inclusive, é de sua autoria.
Também é de Tórtoro a redação
do hino da ARL. Leitor preferencial de biografias, o
poeta declara “Ribeirão Preto é
um cenário favorável para produção
literária. Temos bons escritores, com obras de
qualidade. Mas há escassez de oportunidades para
publicação destes trabalhos. Isso parte
das editoras e pessoas que estão por trás
da parte financeira da literatura”. Engajado no
mundo dos versos, Tórtoro afirma ainda que sua
estética difere-se da linguagem do romance e
que não pretende tornar-se romancista.
Adepto também da pintura, Tórtoro exibe
na parede de seu escritório, no colégio
onde trabalha durante os dias da semana, o óleo
sobre tela, em preto e branco, com o rosto de Jesus
Cristo ferido na testa pela coroa de espinhos. O posicionamento
do artista em relação à literatura
é humilde e desapegado. “Não sou
um grande conhecedor de literatura como a equipe da
ARL, por ser oriundo da matemática. Sou um poeta
entusiasta do movimento literário”. Tórtoro
discorre, entretanto, por temas ligados às letras.
“Não vejo a literatura do interior paulista
como algo tão característico em ícones
de personalidade como ocorre com as literaturas mineira
e gaúcha”.
Quanto à polêmica existente no universo
literário quanto à rivalidade entre autores
e leitores alencarianos e machadianos, ele posiciona-se:
“Houve um tempo em que eu admirava e consumia
os textos de José de Alencar, mas confesso que
encontrei uma estética mais moderna na escrita
de Machado de Assis; todavia, respeito todas as linguagens
literárias”. Sobre outra polêmica
literária, as duras críticas dos poetas
modernos em relação ao período
do parnasianismo brasileiro, Tórtoro define sua
visão: “A poesia moderna é mais
democrática, a partir do momento em que não
é preciso pertencer-se à uma elite intelectual
para escrever. Os poetas parnasianos e a métrica
rígida daquela estética constituíam
uma elite, dona de rico vocabulário e conhecimento”.
Para o autor, escrever poesia no mundo atual, rápido
e capitalista, consiste em “uma maneira diferenciada
de observar o homem e sua alma. O retorno financeiro
não é suficiente. O prazer está
no exercício da arte”. Em sua obra, Tórtoro
foca todos os temas inerentes ao comportamento humano.
O menos recorrente, entretanto, é o amor. “Minha
esposa reclama que eu escrevo poucos poemas românticos.
O fato se deve a um casamento muito bem sucedido. Por
ser tão feliz com minha esposa, não sinto
necessidade de escrever sobre o amor. Ela matou o romantismo
da minha obra”, declara, ostentando um largo sorriso
de satisfação. Casado desde 1976, Tórtoro
possui um casal de filhos. “Já escrevi
um poema para minha esposa, ´Salvador sem você´,
durante uma viagem à capital baiana. Nestes versos,
cito as belezas da cidade em questão, mas todas
elas são incompletas na ausência do objeto
de amor do eu lírico”.
Envolvido com a mídia regional, jornais e revistas,
o autor tem escrito artigos para veículos em
quantidade que ele classifica intensa o bastante para
estar momentaneamente dividido entre a poesia e os artigos.
Finalizando a discussão sobre poesia, Tórtoro
vê a questão da métrica como algo
de efeito subjetivo. Segundo ele, nem sempre o formato
fixo de um poema, como acontece nos sonetos, pode prejudicar
o desempenho do autor. “Temos o exemplo dos repentistas,
que criam sua poesia popular de acordo com uma métrica
própria, dentro da qual fluem com total naturalidade”.
Em seu livro mais recente, “Antologia Ítalo-brasileira”,
lançado em 2003, o artista versa em dois idiomas,
português e italiano.
O tom do poeta torna-se sutilmente mais sério
quando o assunto é a Academia Ribeirão-pretana
de Letras. Tórtoro revela que aos 57 anos de
existência, a instituição ainda
não possui sede própria, nem recebe qualquer
tipo de incentivo financeiro do Ministério da
Cultura ou prefeitura municipal. “A Academia se
mantém com as mensalidades pagas pelos membros,
num valor de R$ 150 mensais”. Seguindo os moldes
da Academia Francesa e da Academia Brasileira de Letras,
há 40 cadeiras, ocupadas por escritores de destaque,
eleitos por uma comissão julgadora interna.
“Quando uma das cadeiras torna-se vaga por falecimento
do literato, a academia espera por um período
de dois meses em respeito à memória do
falecido. Em seguida, é publicado um edital nos
jornais da cidade, anunciando a abertura da vaga. Os
escritores interessados devem dirigir um currículo
completo com citação de sua obra, tanto
artigos quanto livros. Este material será analisado
por uma comissão num período de dois meses,
e ao final, o candidato mais qualificado ocupará
a cadeira”. Tórtoro acrescenta que em alguns
casos, pode acontecer de nenhum candidato ser eleito,
o que levaria à publicação de novo
edital e realização de nova triagem.
Segundo o presidente, a rotina da ARL consiste na criação
de projetos literários como concursos esporádicos,
discussões sobre literatura e parcerias com universidades
de Ribeirão Preto e a mídia regional para
a publicação de material. Atualmente,
há edital aberto para inscrições
de literatos interessados em ocupar uma das cadeiras
vagas, decorrente do falecimento do cronista Wilson
Roveri, em 16 de junho de 2004, aos 75 anos. A página
da Academia Ribeirão-pretana de Letras na Internet
é acessada no seguinte endereço: www.netsite.com
/arl. Além de informações sobre
os acadêmicos, o sítio referido traz documentos
históricos e a trajetória de formação
da instituição.
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